Da “representação diplomática” do golpe, alertas constantes

Desde que engendrado o golpe de estado parlamentar-jurídico-midiático que marcou este nosso 2016 na história, lançando-nos de volta à luta elementar pela democracia, já discutíamos o que a realidade imposta aos brasileiros e brasileiras pelas forças reacionárias alojadas no Planalto nos traria também na dimensão internacional. Mas as notícias desta frente são constantes.

Por Moara Crivelente | Coluna no Portal Vermelho

Da inédita nomeação de uma figura inexperiente no tema como José Serra para o Ministério das Relações Exteriores (MRE) até os mais abrangentes planos de entrega do País ao capital internacional e à política imperialista – só a começar pela Petrobras – muito escrevemos sobre o retrocesso que mancha a história de uma diplomacia há pouco classificada de “ativa e altiva”.
As comunicações do Itamaraty tornaram-se as redes sociais de um chanceler que se promove em amenidades e encontros com patrões estrangeiros, em eventos “para atrair investimentos” e, especialmente, em sua agressividade para com os nossos vizinhos latino-americanos que ousaram rechaçar o golpe. Foi preciso até orientar os diplomatas a rebater “a tese do golpe” em maio, quando Serra assumiu seu posto interino e, em junho, o MRE empenhado em combater a denúncia exonerou Milton Rondó Filho do cargo comissionado de coordenador-geral de ações internacionais de combate à fome por ter enviado circulares de alerta, quando a presidenta Dilma Rousseff ainda estava à frente do Executivo, segundo a Folha de S.Paulo.

Serra assina as notas do Itamaraty em tom de promoções pessoais, mas como se representasse o País inteiro. Pensando bem, até nos faz um favor, deixando claro para a história a autoria dos disparates. Foi o exemplo da nota sobre a situação na Venezuela, interferindo nos assuntos domésticos do país vizinho pouco depois de ter rechaçado a preocupação dos venezuelanos, equatorianos, bolivianos e cubanos com a nossa “situação”.

O governo golpista recolhe o Brasil de volta ao “quintal dos EUA”, lugarzinho que tucanos e companhia sempre acreditaram ser o nosso – e para isso Serra foi posto no cargo. O Itamaraty é instrumentalizado como a máquina de propaganda da (falsa) legitimidade do governo de Michel Temer, e fica afastado da população brasileira e dos movimentos sociais, na sua ilegitimidade.

Entre os retrocessos impostos pela camarilha do golpe se destaca a aberta intenção de desacelerar a locomotiva do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – sigla que Serra já deve ter aprendido). Há apenas dois anos, em Fortaleza, os líderes do BRICS anunciaram seu papel no projeto de uma política internacional multipolar, com um conjunto de posicionamentos comuns e a criação de um banco que daria ao resto do mundo uma alternativa aos intervencionistas Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial.

Outro exemplo é a notícia do final de outubro, direto do Planalto, sobre a isenção unilateral de vistos a quatro países (EUA, Canadá, Austrália e Japão) que, segundo o Valor Econômico, “oferecem baixo risco migratório e têm padrão elevado de gastos em viagens ao Brasil”. A decisão teria sido tomada pelo chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, em reunião com quatro outros Ministérios. Ressalta-se que a China ficou de fora do pacote, ainda que, quem mede o tema em dólares saberia que os turistas chineses foram os que mais gastaram no exterior em 2015, de acordo com a Organização Mundial do Turismo.

Em outros tempos, em 2012, os brasileiros chegaram a ser os que mais gastaram em Orlando (em atrações como a Disney), Flórida: apenas neste estado dos EUA, deixaram 2,2 bilhões de dólares (cerca de R$ 4,5 bilhões na cotação daquele ano). Mas isso não nos comprou a isenção de vistos, nem para um país que, como os EUA, patinava contra a recessão que hoje os golpistas no Brasil vendem como o motivo da sua decisão, abrindo mão da reciprocidade prevista no Estatuto do Estrangeiro.


Nos escândalos que dão a toada desta conjuntura também está Serra, ainda que acobertado pela mídia conservadora, acusado de receber R$ 23 milhões em caixa dois em 2010 (em valores atuais, seriam R$ 35,5 milhões, segundo a própria Folha de S.Paulo). Isso é notícia velha, mas o chanceler ainda não sofreu uma “condução coercitiva”. Tampouco foi removido do cargo, como outros foram, às pressas, com quantias menores nos bolsos, como ressalta The Intercept.

Entre os descarrilamentos está ainda a provável retração do Brasil em temas de urgente relevância, como a reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) – de uma representação anacrônica que a permite ser aparelhada pelo imperialismo estadunidense e europeu – e a construção de uma política multilateral em alternativa ao unilateralismo hegemônico dos EUA.

E pensar que há poucos anos mediávamos um acordo nuclear com o Irã, em parceria com a Turquia, e aprofundávamos nosso papel na questão da Palestina – com o reconhecimento do Estado em 2010, liderando um movimento neste sentido, e maior participação nas atividades da Agência da ONU para Assistência e Trabalhos para os Refugiados da Palestina (UNRWA); que formulávamos uma discussão alternativa à famigerada “Responsabilidade de Proteger” promovida a favor das intervenções militares ditas “humanitárias” e, claro, atuávamos por uma ordem multipolar – ou multilateral, prefiro dizer – com a participação ativa no BRICS, na Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), em um MERCOSUL mais dedicado a temas políticos e sociais para além de uma união aduaneira; nas parcerias estreitas com os países africanos e os países árabes; entre tantas outras áreas.

Quem diria também que há apenas um ano nos reuníamos enquanto movimentos sociais com Jeferson Miola, que representou a Secretaria-Geral da Presidência da República em Túnis, durante o Fórum Social Mundial, quando reivindicávamos posições, em diálogo direto, como o fim dos acordos militares do Brasil com Israel, entre outras.

Estes são apenas alguns exemplos do giro de 180º do Brasil pós-agosto de 2016 que afetou a nossa projeção internacional com reflexos de e para dentro do País. Pela política externa soberana e solidária, patriótica e internacionalista, “ativa e altiva”, seguimos mobilizados contra o golpe.

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