José Serra proclama os Estados Unidos do Brasil, que não reconhecemos

Caía a noite sobre a breve história da democracia no Brasil, como um manto pesado e ardiloso, neste 31 de agosto de 2016, e o Itamaraty já emitia declarações contra alguns dos nossos principais amigos e parceiros latino-americanos, que ousaram condenar o golpe desferido contra o país. O resultado do dia histórico é que estão proclamados, embora não reconhecidos, os Estados Unidos do Brasil, uma ode à “República Velha” e à “República das Bananas“.

Por Moara Crivelente | No Portal Vermelho

Michel Temer e José Serra recebem o chanceler estadunidense John Kerry, no início de agosto.
Foto: Agência Brasil

As notas do Itamaraty, emitidas pouco após as reações assombradas da Bolívia, da Venezuela, do Equador e de Cuba, insistiam na tentativa de legitimar a farsa de um processo político-jurídico mal construído. Sabemos que não foi relevante, para efeitos da ruptura democrática, o seu conteúdo. As falácias da sua legitimação concentram-se apenas na forma – como lembrou a presidenta Dilma Rousseff – e insultaram a Constituição, a democracia e o povo. Foi imposto, ao fim e ao cabo, o retorno das eleições indiretas, pelos arautos da corrupção entrincheirados no Congresso.

Nas duas notas emitidas às oito da noite, o Itamaraty repetiu termos de outras emitidas após a suspensão da presidenta Dilma Rousseff de seu cargo, em maio, e “repudiou” o posicionamento do governo venezuelano, que no dia do malfadado impeachment havia chamado as coisas pelo nome e condenado o golpe. A Venezuela convocou seu embaixador no Brasil para consultas, o que significa um contundente protesto. O Brasil do dia zero pós-golpe (p.g.), no arrastado funeral da sua política externa solidária e altiva, convocou seu embaixador na Venezuela. Está consumada, assim, a postura que Serra pretende assumir pelo Brasil na Nossa América.

Além da nota exclusiva contra a Venezuela – que está na mira da direita reacionária brasileira solidária aos golpistas venezuelanos e que foi alvo da Chancelaria interina na campanha contra a transferência da Presidência pro tempore do Mercosul, em que se tentou comprar a cumplicidade do Uruguai – o Itamaraty nos ofende com uma nota condenatória contra a Bolívia, o Equador e Cuba. Os três manifestaram-se também em repúdio ao golpe imediatamente após o seu desfecho. Repete-se a ladainha da legalidade do processo e da “incompreensão” dos nossos vizinhos sobre os procedimentos brasileiros. Enganam-se. Em espanhol, golpe também é golpe.

A entrega nacional no plano do golpe

Não é surpresa que, no mesmo dia, os Estados Unidos de fato tenham assumido seu papel na trama. Em sua conhecida tática de promover ou apoiar – direta ou indiretamente, dependendo das circunstâncias – os diversos golpes e tentativas de golpe, o Departamento de Estado dos EUA assegurou seus aliados brasileiros que as relações bilaterais estão mantidas. O porta-voz John Kirby afirmou: “Nós cooperamos com o Brasil para tratar de questões de interesse mútuo nos desafios globais mais prementes do século 21. Pretendemos continuar esta colaboração muito essencial”.

A lista estende-se, sabemos, desde a Petrobras até outros possíveis escambos à vista de Serra e da trupe golpista para entregar o país ao mercado estadunidense ou europeu. No transcurso do golpe, em 5 de agosto, o chanceler estadunidense John Kerry estava no Brasil, quando anunciou planos de aprofundamento das parcerias que teriam sido desaceleradas nos últimos anos por “questões políticas”.

Kerry falou em incrementar o mercado bilateral, já que os EUA enxergam no Brasil 200 milhões de consumidores e, no passado, nossas “parcerias” acabaram por condenar o país ao atraso estrutural. Caso o golpe não fosse aprovado, pode-se especular, a Quarta Frota da Marinha estadunidense no Atlântico Sul ou as duas bases militares extras anunciadas na Argentina de Mauricio Macri, inclusive uma próxima à tríplice fronteira e ao Aquífero Guarani, poderiam enviar-nos recados.

Não fica velha a piada: Serra, em 2012, confunde o nome do Brasil tratando o país pelo nome que tinha na “República Velha”, oligárquica.

Como se sabe, o então senador José Serra elaborou o Projeto de Lei 131, de 2015, que revoga a obrigatoriedade de participação mínima da Petrobras, estabelecida em Lei de 2010, na exploração do Pré-Sal. A estatal brasileira, repetimos, é um dos principais alvos da farsa. No ápice do processo golpista, em 26 de agosto, Serra recebeu a cúpula da Shell, a anglo-holandesa escalada como uma das seis maiores petrolíferas do mundo e a maior multinacional em termos de receita em 2013, segundo a Fortune 500.

Segundo o WikiLeaks, o Pré-Sal está na fatura do golpe desde que Serra prometeu à estadunidense Chevron, outra das maiores petrolíferas do mundo, o fim da participação obrigatória da Petrobras – uma das táticas de afirmação soberana do Brasil e uma das fontes de recursos para os principais setores sociais.

Na sessão de admissibilidade do impeachment no Senado, em 12 de maio, Serra começou citando o ex-presidente estadunidense John Kennedy – em sua própria citação incorreta de Dante Alighieri, erro repetido pelo então senador – quando disse que os que se mantêm neutros diante de uma crise moral têm um lugar reservado no inferno. Serra parabenizava e buscava tranquilizar os senadores: “ninguém desta Casa, senhor presidente, vai ficar no lugar mais escuro do inferno”, apostou.

Terão, porém, seu lugar reservado na vergonha da História, inclusive com discursos como o de Serra, que se adjudicou o papel de mediador entre a vontade dos 54,5 milhões de brasileiros e brasileiras que votaram na presidenta Dilma e a “moralidade da política” – justo ele, que é acusado de receber R$ 23 milhões em caixa dois da Odebrecht. A ladainha não poderia ser mais fajuta. Já os “indícios dos crimes de responsabilidade” só entram depois em sua fala. Não chegaram ainda à realidade, porém, pois o golpe não precisa disso para derrubar ninguém.

Mas esses são fatos à vista de todos e todas, assim como a decadência o Itamaraty, chefiado por alguém sem qualquer experiência ou postura diplomática, um mero mediador no plano de entrega do país. Resta-nos a resistência a tamanha vergonha nacional, a tamanha agressão contra a democracia e o povo, contra o Brasil. Contaremos com a solidariedade internacional na defesa da História.

Anúncios

Um comentário em “José Serra proclama os Estados Unidos do Brasil, que não reconhecemos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s