Israel elabora programa para perseguir e deportar ativistas como ameaças

Não é recente a perseguição, por parte do governo de Israel, aos ativistas, acadêmicos e jornalistas que ousam denunciar e protestar contra as políticas que sustentam a ocupação da Palestina. Entretanto, o governo israelense estabeleceu no domingo (7) a equipe interministerial que formulará um programa para a deportação de ativistas. A crescente solidariedade internacional aos palestinos é taxada de “risco à segurança nacional”.

Por Moara Crivelente | No Portal Vermelho e no Cebrapaz

Organizações brasileiras visitam Bil’in, na
Cisjordânia ocupada, em 2013 – Foto: Rafael Oliveira

Os casos de deportação e proibição de retorno vão se amontoando e uma campanha se gesta para a denúncia desta como uma política repressiva. Como o meu– fui interrogada, detida, deportada e banida por 10 anos – inúmeros outros episódios evidenciam a prática cada vez mais virulenta de um governo racista e fascista instalado em Israel.

Encontramos um novo desafio ou, por outro lado, uma plataforma, já que as decisões do governo israelense têm constrangido seus aliados mais fiéis – a União Europeia e os EUA – e exposto sua faceta opressora, para o mundo entender melhor o que é a ocupação da Palestina.

Segundo o World Israel News, um grupo interministerial formulará um programa para “rastrear e deportar ativistas anti-Israel que tenham vindo ao Estado Judeu para causar danos”. Uma equipe jurídica deverá acompanhar a elaboração do programa, prática usual para que a iniciativa não seja exposta pela arbitrariedade, pretensamente disfarçada com legalismos. No diário Haaretz, funcionários do governo são citados afirmando que “certos grupos já foram marcados” para deportação.

Não há engano: trata-se de um programa para vigiar e perseguir a oposição ao governo israelense e de mais uma prática ofensiva da ocupação. A maior parte dos ativistas hospeda-se na Palestina, conforme reconhecida por cerca de 140 países – nas fronteiras anteriores à guerra de junho de 1967, quando Israel declarou uma anexação ilegítima de terras árabes – e não em território israelense. Aliás, a frase evidencia também o entendimento exclusivista de um país cuja população é composta em 20% de árabes.

O ministro da Segurança Pública e Assuntos Estratégicos Gilad Erdan e o ministro do Interior Arye Deri estão à frente do plano para deportar ativistas que estejam “no país” – seja Israel ou os territórios ocupados da Palestina – e recusar a entrada àqueles que aderem ao movimento pelo Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) a Israel. O BDS tem angariado apoio exponencial desde 2005, quando os palestinos decidiram lançar o apelo à solidariedade internacional contra a ocupação da Palestina.

A repressão é cotidiana, afetando palestinos, israelenses e estrangeiros que são taxados de riscos à “segurança” de Israel. A propaganda difamatória e a perseguição, o encarceramento e o banimento tampouco são notícias frescas. Mas a institucionalização dessas práticas precisa ser exposta, principalmente num governo de extrema-direita recordista, comandado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

O Cebrapaz, o PCdoB, o Conselho Mundial da Paz e outras organizações que integram o CMP posicionaram-se em rechaço contundente à prática israelense na tentativa de intimidação da solidariedade internacional ao povo palestino.

Da mesma forma, o posicionamento dos governos dos países cujos nacionais são deportados por Israel também precisa ser indagado. Não é surpresa que a Chancelaria sob o comando do golpe reacionário tenha respondido que Israel tinha o direito, mesmo gozando de um acordo de isenção de vistos com o Brasil, de recusar a minha entrada no país – ainda que por motivos políticos. Não fui a primeira – no ano passado, mais dois brasileiros foram impedidos por Israel de entrar na Palestina e banidos sem maiores explicações – e posso não ser a última. Não se espera, mas pode-se demandar uma atitude a respeito e expor que a trupe do golpe no Brasil pretende afagar o governo Netanyahu a despeito dos seus crimes.

Seja na demolição de casas, na prisão de sete mil palestinos – inclusive 350 crianças, de acordo com a associação Addameer –, nos confrontos exponencialmente fatais, no muro, na expansão das enormes colônias engolfando territórios roubados dos palestinos, entre outras, a ocupação da Palestina é cada vez mais rechaçada, combatida e denunciada.

A censura e a perseguição intensificam-se, portanto. Jornalistas israelenses notaram que as ordens de silêncio sobre determinados assuntos triplicaram nos últimos 15 anos. Na terça-feira (9), segundo o portal +972 Magazine, o Ministério da Justiça confirmou que tem intimado redes sociais como o Twitter e o Facebook a triar as mensagens que os israelenses podem ler e, durante as ofensivas militares, colunistas mais críticos recebem ameaças até de leitores.

Além disso, quem chega ao aeroporto internacional Ben Gurion, em Tel Aviv, já espera que seus celulares, computadores e perfis nas redes sociais sejam analisados para revelarem qualquer demonstração de solidariedade aos palestinos, crítica a Israel ou indício de contato com um palestino – cujos dados serão coletados para qualquer tratamento repressivo. Nomes dos pais – teremos problemas se soarem árabes –, visitas a locais na Palestina, a ascendência e até a religião do visitante são questões corriqueiras nos interrogatórios, onde vemos os rostos dos interrogadores assumirem expressões cada vez mais graves, até que nos declarem banidos “por razões de segurança”.

A solidariedade internacional ao povo palestino, as críticas e até mesmo as iniciativas de paz entre as comunidades israelenses e palestinas são tratadas como ameaças. Organizações civis de Israel e da Palestina são reprimidas e censuradas, ativistas e acadêmicos estrangeiros são intimidados e deportados. Agonizando, um regime que mantém outro país e outro povo ocupado e combate qualquer oposição revela o seu desprezo pela democracia, apesar da retórica de um oásis da modernidade. A farsa fica cada vez mais evidente à medida em que a solidariedade ao povo palestino fortalece-se.

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