O protagonismo dos povos nas relações internacionais pela paz

O estudo e o discurso sobre as relações internacionais, tanto na esfera prática quanto na esfera teórica, foram e continuam sendo pautados por reflexões da “grande política”, onde apenas líderes de Governo e perspectivas de Estado têm relevância. Desde os anos 1960, porém, as análises da política mundial e do que exatamente se pretendia alcançar como “paz”, embora sempre pensada a partir da análise da guerra, tomariam um rumo crítico, em constante discussão. A inclusão de novos atores na análise era demandada, mas movimentos de resistência anti-imperialista e anti-capitalista eram a contra-hegemonia da prática, aos poucos levada à teoria.

Por Moara Crivelente | No portal da Resistência

Desde os Estados Unidos, Kenneth Boulding fundava uma revista científica e um centro de pesquisa focados na “resolução dos conflitos”. Desde a Europa, Johan Galtung sugeria os “Estudos para a Paz” enquanto empenho declarado por influenciar a formulação de políticas alternativas ao até então absoluto empenho por entender, prever e calcular a condução da guerra.

Foram esses os passos iniciais, ainda que inicialmente circunscritos à cidadela acadêmica, para a disseminação de outras vias de análise do poder, da violência e das possibilidades de paz. Curiosamente, naquelas décadas de Guerra Fria, o norueguês Galtung usou noções que Marx, Engels, Gramsci e Lenin destrincharam em suas obras. Entretanto, tendo em conta a conjuntura, Galtung evitava seus termos temendo a rotulação do seu trabalho, que ele pretendia mais difundido. Ao descrever a violência e descrever seu caráter estrutural – que poderia culminar na violência direta, como a guerra – Galtung evitou o termo “exploração”, que ele dizia ser “carregado politicamente”. Tratou ainda da “hegemonia” de forma similar a Gramsci, sem se referir a ele, e apenas mais tarde abordou a noção de imperialismo, também sem citar Lenin ou outros autores que já se haviam debruçado sobre essa análise.

Mesmo assim, a proposta de Galtung foi ambiciosa, num momento em que a “gestão de crises” – como a crise dos mísseis dos anos 1960 – e a lógica da dissuasão nuclear eram os temas quentes da disciplina e dos debates de “grande nível”. Galtung propunha, afinal, uma agenda acadêmica e política de paz, que mais tarde romperia a barreira das análises positivistas, deterministas e objetivistas, ditas “Realistas”, cujo enquadramento era a máxima expansão hegemônica e a defesa de interesses particulares, num sistema dito “anárquico” de relações internacionais. A defesa da cooperação era tida como ingênua ou “idealista”, na melhor das hipóteses, ou como “propaganda comunista” a ser combatida, no extremo – embora seus promotores não fossem sempre de esquerda.

Galtung propunha uma análise mais crítica dos conflitos assolando o planeta, que se preocupasse com suas causas profundas e não apenas com interesses ou rotulações simplistas, para assim possibilitar a construção de uma paz sustentável e a transformação de conflitos em oportunidades.

O árduo trabalho de pesquisadores críticos ao “Realismo” encontra barreiras no meio acadêmico e na formulação de políticas, já que muitas vezes menosprezado como “não científico”. Mesmo assim, o impulso por abordagens críticas encontrou campos vastos em que desenvolver e promover novas alternativas de análise e de prática das relações internacionais, longe de consensuais, é claro, já que em constante discussão. Mas esta é a novidade: as relações internacionais podem ser um debate construtivo, e não apenas jogos de poder em que a hegemonia é absoluta e a ordem, incontestável.

Neste campo, formulado inicialmente desde a chamada Escola de Frankfurt, a crítica das relações de poder, da comunicação, da violência social e do próprio pensamento na base da “produção do conhecimento”, ou as “identidades” e a sua instrumentalização para a violência fundamentam o enfrentamento à hegemonia, à dominação e à exploração e propõem vias alternativas de emancipação, com notável influência marxista.

Neste campo, o colonialismo, o imperialismo, o patriarcalismo e as relações de poder em geral no sistema capitalista ficaram expostos. Os atores na análise foram multiplicados, possibilitando que os povos tomassem lugares relevantes. Resistindo à exploração e travando lutas por autodeterminação, o papel das sociedades, das comunidades e dos indivíduos ganhou maior espaço. Os círculos de poder viram-se obrigados a prestar atenção a este desenvolvimento, o que suscitou preocupações: serão os Estudos para a Paz cooptados pelo poder enquanto um discurso ético e de aparência democrática, para proteger o status quo? É neste sentido que os estudos críticos da geopolítica, da segurança, dos conflitos, da comunicação, entre outros, discutem o seu papel na construção de um sistema de relações mais justas e de possibilidades de paz como emancipação.

Na prática, movimentos populares de todo o mundo somaram-se na luta incansável contra o imperialismo, suas guerras e o sistema de exploração capitalista das que derivam. Por exemplo, nascido em 1950, num impulso dos combatentes na resistência contra o nazismo e de intelectuais progressistas, o Conselho Mundial da Paz busca fortalecer a solidariedade entre os povos em sua luta comum pela paz e a justiça, a autodeterminação e um mundo livre das ameaças imperialistas. A entidade, composta por movimentos de cerca de 100 países, afirma o protagonismo dos povos na luta por alternativas, um protagonismo que não pode ser ignorado na análise e na prática das relações internacionais, também rompendo barreiras para assumir o seu lugar.

A “produção de conhecimento” e a “formulação” da política internacional não podem se sustentar em círculos exclusivistas e decisões tomadas a portas fechadas, ou expõem sua ilegitimidade. Cabe aos movimentos populares e aos intelectuais críticos fortalecerem a luta pela alternativa, desafiando a hegemonia dos grandes cálculos das potências capitalistas e resistindo ao imperialismo para abrir vias na construção da paz e da justiça, através da solidariedade internacionalista.

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