Controle e a “guerra contra o povo” na Palestina ocupada

O presidente Mahmoud Abbas anunciou que a liderança palestina decidirá na próxima semana sobre a “coordenação securitária” com Israel, um mecanismo imposto por mediadores internacionais para contemplar os “receios” israelenses por sua segurança. Os palestinos colocam em cheque um importante instrumento na “matriz de controle” de Israel imposta à população e seus territórios. A resistência se fortalece, mas a violência ainda é estrutural na Palestina ocupada.

Por Moara Crivelente | No Portal Vermelho

 Soldados israelenses reprimem protesto de palestinos na cidade de Kfar Kana.


Soldados israelenses reprimem protesto de palestinos na cidade de Kfar Kana. Foto: Daily Mail


A indústria bélica de Israel vai de vento em poupa, com o controle e a repressão da população palestina sob ocupação como sua propaganda oficial, além das espetaculares ofensivas militares que, em 2014, mataram mais de 2.200 palestinos e devastaram a Faixa de Gaza. A medição do “progresso” pelo Exército israelense é pautada pelos efeitos da pausa na violência direta e pelos índices de crescimento econômico em Israel mesmo durante as ofensivas.

Esta é uma das conclusões do pesquisador israelense Jeff Halper, que publicou recentemente o livro War Against the People: Israel, the Palestinians and Global Pacification (“Guerra contra o Povo: Israel, os Palestinos e a Pacificação Global”, sem tradução para o português). Halper, que preside o Comitê Israelense Contra Demolições de Casas (ICAHD, na sigla em inglês), analisa o papel de Israel nas estratégias e doutrinas globais de controle e repressão, com um portfólio rico em experiências na opressão sistemática, “moderna e tecnológica” dos palestinos.

As páginas de grandes empresas bélicas como a Rafael anunciam opções de controle de ofensivas que para muitos podem parecer extraídas de um filme. Além de tanques, submarinos, a “Cúpula de Ferro” (um sistema anti-mísseis financiado pelos EUA) e outros dispositivos, a empresa fabrica um “sistema panóptico” de vigilância, o Sentry-tech, já instalado na fronteira da Faixa de Gaza, que permite a soldadas (apenas jovens mulheres usam o sistema) identificar e disparar, com um controle remoto, contra palestinos que se aproximem de zonas de controle.

A construção de muros como instrumento de controle de território e populações tem precedência na história do sionismo, que sustenta a colonização da Palestina. Em 1923, Halper escreve, Ze’ev Jabotinsky, mentor político do atual premiê Benjamin Netanyahu e outras figuras da colonização, formulou a doutrina do Muro de Ferro, reconhecendo a probabilidade de resistência da população originária, um “muro de ferro que ela será impotente para derrubar”.

As justificativas são sempre a “violência” e a “ameaça” apresentada pelos que resistem, mas a implantação de sistemas de vigilância, muros, regimes que limitam a movimentação, armas automáticas para execuções à distância, prisões e outras técnicas têm resultado em mais revolta, e não na “pacificação”.

Colonização e controle enraizados

Na década de 1930, a disposição estratégica das colônias antes mesmo do estabelecimento do Estado de Israel, em 1948, pretendia influenciar a futura definição das fronteiras, deixando eventualmente pouco mais de 20% da Palestina histórica aos palestinos. Mas em 1936, quando os palestinos rebelaram-se contra o Mandato Britânico que protegia a colonização sionista, lembra Halper, as colônias já eram cercadas por muros e torres de vigilância.

O muro idealizado por Ariel Sharon, antigo premiê de Israel, começou a ser construído em 2002. Atualmente tem cerca de 800 quilômetros de extensão e oito metros de altura em importantes trechos (áreas urbanas, por exemplo), o dobro da altura do muro de Berlim, capturando terras palestinas. Halper escreve que, na década de 1980, quando era ministro da Defesa, Sharon também idealizou um “Plano Mestre para as Colônias Israelenses na Cisjordânia até 2010”, definindo a localização de 100 colônias a serem construídas e das estradas exclusivas que cortariam e isolariam vilas e cidades palestinas.

O planejamento urbano e de infraestrutura da colonização israelense segue uma lógica puramente militar e uma formulação estratégica para controlar os palestinos garantindo a “segurança” dos colonos. O “processo de paz” de Oslo, lançado na década de 1990 para estabelecer acordos interinos na transição para a consolidação do Estado palestino, acabou por garantir a proliferação e a consolidação dos planos de Sharon e de outros antes e depois dele, com o objetivo de enterrar a “solução de dois Estados”.

Enquanto isso, a reação da liderança israelense contra as evidências que apontam para um regime de segregação, de apartheid, é a de negá-lo, embora a doutrina que sustenta a estratégia de controle dos palestinos seja classificada de hafrada, que significa “separação” em hebraico.

Revolta e denúncia

Os palestinos rebelam-se diante dos fatos aparentemente incontornáveis. Mesmo com todo o aparato repressivo, a violência volta a atingir picos, quando alguns decidem armar-se para demonstrar a sua revolta contra aqueles que os têm em suas miras todos os dias. Mais de 80 palestinos, para além das vítimas de ataques de colonos, já foram declarados culpados e executados no ato ao tentarem, ao parecerem tentar, ao supostamente imaginarem, um ataque contra israelenses, escreve a jornalista Amira Hass, em recente coluna no diário Haaretz.

Além disso, a agência palestina de notícias Ma’an denuncia que as autoridades israelenses voltaram a capturar os corpos de “suspeitos” por extensos períodos após matá-los, impedindo as famílias de investigar as suas mortes e de enterrá-los. Desde outubro de 2015, mais de 80 foram capturados e só devolvidos, segundo o ministro da Defesa de Israel, “sob condições”. No total, a Ma’an estima que 140 palestinos e 21 israelenses foram mortos desde outubro do ano passado.

Os palestinos temem tentar alcançar seu documento no bolso ao atravessar um posto de controle israelense, já que podem ser sumariamente executados e noticiados como “suspeitos terroristas”. Além disso, dezenas já foram vítimas de ataques de colonos armados, com treinamento militar. Quase todos passam incólumes, impunes, assim como o Estado que os protege. Aos palestinos, e aos crescentes movimentos sociais e indivíduos pelo mundo, solidários à sua causa, resta resistir, boicotar, denunciar e exigir o fim da ocupação.

Posto de controle militar israelense em Calândia, Palestina.
Foto: Moara Crivelente

Um relatório do Ministério das Finanças israelense elaborado em 2013 já estimava que o crescente boicote internacional, motivado pelo retumbante rechaço à ocupação da Palestina, custaria 40 bilhões de shekels (R$ 41 bilhões em valores correntes) anuais a Israel. O impacto sobre os trabalhadores israelenses, com milhares de empregos perdidos, é elevado, mais uma amostra de que os custos da ocupação são impostos à população também em Israel. Embora apresente suas medidas opressivas como proteção aos seus cidadãos, a liderança israelense também é responsável por incitar e fomentar a rivalidade entre a sua população e os palestinos.

A adesão da Palestina ao Tribunal Penal Internacional e a acusação de Israel por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, além da suspensão ou denúncia dos acordos que, supostamente interinos, enraízam a ocupação israelense – como a “coordenação securitária” entre as forças de segurança palestina e israelenses – são exemplos de passos decididos na exigência por mudança. Cabe ao resto do mundo acompanhar a Palestina nesta estrada rumo ao fim da ocupação.

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