Na solidariedade a Paris-Beirute, a morte só tem nome para poucos

As várias análises sobre os brutais atentados contra a capital francesa, com seu glamour ofuscado pelo massacre de 129 seres humanos e o terror instaurado, são necessárias e decididamente diversas. Desde a reação securitária do presidente François Hollande ao drama coberto pela mídia no local na sexta-feira (13), o discurso mobilizador e aglutinador sobre o terrorismo deixa pouco espaço para a reflexão sobre o trajeto que nos trouxe até aqui e as próximas vítimas da reação.

Por Moara Crivelente

Entretanto, esta coluna não se pode prestar à necessária, complexa e multidimensional análise proposta porque são várias as vítimas a retratar, e já a se retratarem. É claro, não são só os jovens que assistiam ao concerto no Bataclan – onde mais de 80 pessoas foram assassinadas – nem só os turistas que, atemorizados, foram privados das visitas ao Louvre e à Torre Eiffel, já que os locais públicos foram encerrados. Nem os já bombardeados na Síria desde domingo, “terroristas” ou “baixas civis”, pela Força Aérea francesa – alguém questionará a legalidade da ação?

Análises da comunicação e da psicologia explicam a insuficiência de questionamentos quando o discurso hegemônico é um poderoso, assentado na revolta e no “terrorismo” para a mobilização nacional, a “unidade”. O círculo não é interrompido sequer para questionar as origens dos monstros nas “guerras por procuração” ocidentais para derrubar governos arredios aos seus mandos.

As vítimas deste método brutal acumulam-se desde a Nigéria até a Tunísia, o Líbano, a Síria, o Afeganistão e o Iraque. Mas desde o 11 de setembro, que passou a ser outro marco trágico na história mundial, todos fomos submersos numa guerra etérea e de agendas particulares. Os refugiados que batem à porta das potências envolvidas em guerras “no exterior”, buscando abrigo contra o caos absoluto e a morte disseminada, procuram brechas entre as fronteiras, cada vez mais militarizadas e seladas. A guerra chega ao centro e a periferia cobra a responsabilidade daqueles que a manuseiam. Não é à toa que entre as primeiras medidas de Hollande esteve o encerramento das fronteiras, a suspensão do livre trânsito entre os signatários europeus dos exclusivistas acordos de Schengen.

Quem sofre as consequências dessas políticas é sempre o povo, em geral, mas a solidariedade expressa-se mais facilmente àqueles para quem os meios de comunicação não impõem a guerra como estado natural das coisas; este é o caso apenas dos “outros”, na África e no Oriente Médio. Nas redes sociais alternam-se debates sobre a mobilização para o combate ao “terror” e o questionamento sobre a solidariedade seletiva – por exemplo, no mesmo dia, na capital do Líbano, Beirute, mais de 40 pessoas foram mortas num atentado, na região de Burj al-Barajneh. Mas o que todos sabiam eram os locais exatos dos brutais ataques em Paris, acompanhando minuto a minuto as investigações à espera do veredito: o “Estado Islâmico” é o responsável. Já sobre Beirute, foram mais dois atentados suicidas; notícias previsíveis não são manchete.

Ao mesmo tempo, líderes muçulmanos e simpatizantes apressam-se por também demonstrar sua humanidade ao expressar solidariedade ao povo francês e condenar a carnificina como algo decididamente contrário ao Islã, que prega a paz e a harmonia entre os povos.

A reação explica-se não só com a própria solidariedade, mas também com a prevista reação islamofóbica nas políticas securitárias das “medidas de emergência” e na xenofobia entre a sociedade já rompante por esses lados. Em Calais, por exemplo, o canal entre a França e o Reino Unido onde milhares de migrantes são entulhados em campos precários até que se decida o que fazer com suas vidas, mais um ataque já foi registrado contra um acampamento.

Mesmo assim, as redes também estão cheias de mensagens de solidariedade de populações abatidas pelos mais brutais reflexos de uma política imperialista de ocupação e massacre, como é o caso dos quatro meninos de Gaza empunhando cartazes em árabe e francês, entre tantos outros. Que a demonstração de repúdio e pesar pelas vítimas seja realmente internacional, assim como as análises sobre a responsabilidade pela disseminação da violência, do ressentimento, pela ingerência, a dominação e morte desumanizada. Para alguns.

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