Netanyahu busca ocupar a política internacional com a colonização da Palestina

O primeiro-ministro israelense, cada vez mais isolado, já admitiu: não pretende “permitir” o estabelecimento do Estado da Palestina. Benjamin Netanyahu trava uma batalha diplomática por enraizar, na política internacional, a defesa da ocupação. Na semana passada, o Brasil foi confrontado com a nomeação de um ex-líder colono para o cargo de embaixador de Israel. Já na sexta-feira (14), outro defensor da colonização foi nomeado embaixador na ONU.

Por Moara Crivelente* | No Portal Vermelho

Colonos judeus marcham em provocação aos palestinos, com bandeiras israelenses, na Cisjordânia, no bairro de Ulpana, da colônia de Beit-El, construído com apoio e incentivo do premiê Netanyahu, quando ocupava o mesmo cargo, em 1999. 


Colonos judeus marcham em provocação aos palestinos, com bandeiras israelenses, na Cisjordânia, no bairro de Ulpana, da colônia de Beit-El, construído com apoio e incentivo do premiê Netanyahu, quando ocupava o mesmo cargo, em 1999. Foto: Reuters


Netanyahu pretende ocupar a política internacional com uma agenda sionista radicalizada em seus governos. A colonização, assim como os picos de violência mais notórios da história recente na Palestina, são sua marca de gestão. O Ano Internacional de Solidariedade à Palestina, 2014, foi marcado por duas grandes ofensivas militares que causaram condenação mundial.

O premiê promove oficialmente as colônias desde o seu primeiro mandato (1996-1999) e sempre se opôs aos pilares das negociações com os palestinos – nomeadamente, o estatuto de Jerusalém, as fronteiras, a retirada das colônias e o retorno dos refugiados. No início dos anos 1990, proferia discursos raivosos contra o então premiê Yitzhak Rabin pelo malfadado processo de paz de Oslo – que resultou em acordos-quadro supostamente destinados a resolver o conflito, mas enraizou ainda mais a ocupação.

Após se tornar premiê ele ainda assinou o protocolo de Hebron (1997), que dividia a cidade palestina em zonas de controle israelense ou palestino, e o inócuo Memorando Wye River (1998), para a gradual retirada de tropas israelenses da Cisjordânia, mas até hoje enterrado. Entre julho de 2013 e abril de 2014, mais negociações evidenciaram a política central dos seus governos: enrolar para manter a situação intocada. Tratou-se de uma jogada de marketing para melhorar a imagem de Israel internacionalmente e continuar a despejar a “culpa” pela falta de acordos nas costas dos palestinos, ainda que nenhuma das questões centrais sejam sequer cogitadas para o debate pela liderança sionista.

As campanhas internacionais de boicote à economia israelense custam em torno de US$ 4,7 bilhões (R$ 16 bilhões) anualmente e um isolamento político talvez inédito. Uma notícia interessante, neste sentido, foi a petição realizada por britânicos para que o governo prenda Netanyahu quando visitar o Reino Unido, pelos crimes de guerra durante o ataque a Gaza e o massacre de mais de dois mil palestinos, em 2014. Mais de 40 mil britânicos já assinaram a petição durante a última semana, o que significa que ela deverá ser debatida pelo Parlamento. Sem poder contar apenas com a “hasbara” (a propaganda sionista) no cenário internacional, o premiê desespera-se diante das batalhas que sente estar perdendo.


Candidato à reeleição, Netanyahu discursa às vésperas da votação diante de uma colônia em Jerusalém Oriental, palestina. Foto: Haaretz


Em março, Netanyahu quase foi derrotado nas eleições; o acordo das potências mundiais com o Irã provoca o seu isolamento devido à sua oposição raivosa; a nova escalada da violência na Palestina ocupada rende a Israel reprimendas inclusive de seu maior aliado, os EUA; e o investimento estrangeiro em Israel, em 2014, caiu 46% em relação a 2013, de acordo com um relatório da Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD, na sigla em inglês). Mesmo assim, Netanyahu, que se reelegeu por uma margem estreitíssima, aposta na colonização como propulsora da sua agenda doméstica e internacional.

Reação ao isolamento: Colonização

Incluindo no governo não só a mais extrema-direita como, especificamente, aqueles que têm as colônias como prioridade – caso do partido Lar Judeu –, já era esperado que o premiê acelerasse a colonização para manter sua coalizão firme, desta vez. Ele teve de convocar eleições antecipadas precisamente porque seu gabinete se desintegrou após o fracasso das negociações com os palestinos e outros percalços.

Coerente com o foco do seu novo governo, nesta sexta-feira (14), Netanyahu afirmou que nomeará Danny Danon como embaixador de Israel para a ONU. Na semana passada, nomeou oficialmente Dani Dayan como embaixador no Brasil – sem pedir o consentimento usual ao Ministério de Relações Exteriores brasileiro, segundo contato com a assessoria de imprensa do Itamaraty. E estes são apenas os exemplos mais recentes: o embaixador de Israel nos EUA, Ron Dermer, que nasceu e cresceu em território estadunidense, de alianças claras com os republicanos, já afirmou rejeitar a ideia de retirada israelense dos territórios palestinos ocupados.

Dayan, o indicado para a Embaixada no Brasil, foi líder do Conselho Yesha, uma espécie de superprefeitura das mais de 120 colônias – com cerca de 600 mil habitantes – plantadas ilegalmente na Palestina. Ele ainda mora em uma dessas colônias e defende que elas são realidades que não serão desenraizadas.

Por sua vez, Danon, indicado para a ONU, também defende a colonização e opõe-se firmemente ao estabelecimento do Estado da Palestina. De acordo com o diário israelense Haaretz, ele expressa apoio às propostas dos mais radicais sionistas no governo Netanyahu de anexação da Cisjordânia palestina, uma violação flagrante do direito internacional. Danon é um dos líderes da extrema-direita do partido de Netanyahu, União (Likud, em hebraico) e pesa na crítica a Obama, aliando-se à extrema-direita dos republicanos dos EUA para taxar a política do presidente estadunidense de apoio ao estabelecimento do Estado da Palestina – ainda que estritamente retórico – de “mal direcionada e ingênua”.

O premiê disse que “a plataforma da ONU é muito importante neste momento” e que Danon certamente “lutará com toda a sua força para apresentar a verdade na arena internacional”. Já para a União Sionista – coligação entre os partidos Trabalhista (HaAvoda) e Movimento (Hatnuah), que ficou em segundo lugar nas eleições – a nomeação de Danon é “outro prego no caixão das relações exteriores de Israel.”

Assim como radicalizou para forjar sua coalizão de governo, um dos mais extremistas na história de Israel, Netanyahu também joga pesado no cenário internacional, diante do seu crescente isolamento. Segue cabendo aos movimentos sociais e governos progressistas rejeitar a imposição de uma agenda sionista de ocupação, agressões, confrontos e ameaças.

A impunidade israelense ainda é uma pendência e aceitar que uma das suas principais violações do direito internacional humanitário – a colonização da Palestina – seja institucionalizada e representada em suas relações exteriores com o mundo é inconcebível. É claro que, diante de um regime sionista, todo representante oficial trará embaixo do braço uma cartilha da ocupação. Mas o simbolismo importa e é preciso aproveitá-lo para denunciar a colonização e demandar o seu fim.

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