ONU avalia ataques sistemáticos de Israel e devastação persistente na Faixa de Gaza

A Agência das Nações Unidas para Assistência e Trabalhos para os refugiados da Palestina (UNRWA) lançou um apelo por USD 414.435.436,00 (R$ 1,3 bilhão), para cobrir emergências humanitárias em Gaza e na Cisjordânia. Em Gaza, um ano após a ofensiva israelense que atingiu inclusive a agência, a devastação ainda é a realidade vivida pelos palestinos; o acesso à assistência humanitária é gravemente limitado pelo bloqueio vigente desde 2007.

Por Moara Crivelente | Publicado no Portal Vermelho

Palestinos são abrigados contra os bombardeios israelenses nas escolas da UNRWA na Cidade de Gaza. 


Palestinos são abrigados contra os bombardeios israelenses nas escolas da UNRWA na Cidade de Gaza. Foto: UNRWA


Este artigo é parte de uma série por ocasião do aniversário da ofensiva israelense contra Gaza. Leia aqui a primeira parte e aqui a segunda.


O montante estimado pela UNRWA como necessário para 2015 não inclui os serviços principais da ONU, a reconstrução ou projetos de desenvolvimento. Reconhecido pelo relatório da comissão de inquérito do Conselho de Direitos Humanos da ONU, o impacto da devastação pelos 51 dias dos bombardeios israelenses – entre 8 de julho e 26 de agosto de 2014 – é abrangente e inédito. De acordo com a UNRWA, “a destruição de propriedades foi de escala massiva.”

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“No auge do conflito, mais de meio milhão de pessoas deslocadas fugiram dos ataques – quase 300 mil delas buscaram refúgio em 90 escolas da ONU; seis vezes mais do que durante o conflito de 2008-2009. A UNRWA estima que quase 140 mil casas foram danificadas ou totalmente destruídas e que o atual ritmo da reconstrução precisa ser acelerado se é que Gaza será um dia reconstruída.” Esta é a avaliação do comissário-geral da agência, Pierre Krähenbühl, em uma declaração da última semana. Em outubro de 2014, uma “conferência de doadores” no Cairo havia prometido cerca de USD 5 bilhões para a reconstrução de Gaza, menos de um quarto dessa ajuda havia chegado até abril, ainda que carregada de condicionantes impostas pelos “doadores” aos palestinos.

Segundo o relatório do Conselho de Direitos Humanos, publicado em 22 de junho em meio aos ataques da liderança israelense contra o esforço de investigação, 1.462 das mais de 2.200 vítimas fatais eram civis, inclusive 551 crianças. “O desespero, a destituição e a negação da dignidade resultantes da guerra do ano passado e do bloqueio são um fato da vida para as pessoas comuns em Gaza,” disse o comissário-geral da UNRWA. Cerca de 80% dos 1,8 milhão de palestinos do território sitiado depende da agência para sobreviver.

Mais de 300 dias após o cessar-fogo anunciado em 26 de agosto de 2014, continua Krähenbühl, “nenhuma das casas completamente destruídas, que são mais de 12 mil, foi reconstruída. Isso deixa cerca de 120 mil pessoas sem lar,” o que se soma aos altos níveis de desemprego – mais de 40% – e à falta de perspectiva para a juventude de Gaza para criar um barril de pólvora.

O comissário enfatiza o fim do bloqueio como parte da “mudança de paradigma” urgente e afirma a “necessidade de responsabilização pelas violações do direito internacional”, assim como o relatório do Conselho de Direitos Humanos, os apelos de inúmeras organizações civis de defesa dos direitos humanos e a própria promotoria do Tribunal Penal Internacional, que já avalia as denúncias de crimes de guerra.

Ataques deliberados contra civis e a ajuda humanitária

O Relatório Goldstone, resultante dos inquéritos de 2009 – após a “operação Chumbo Fundido” contra Gaza – e o relatório deste ano sobre a situação em Gaza e na Cisjordânia condenam as práticas israelenses durante a ofensiva, em violação tanto do direito internacional humanitário como das próprias regulamentações israelenses para o “combate”. Essas violações, dizem os dois documentos, parecem “deliberadas”: não resultam de “descuido” dos combatentes, mas de “ordens ou do aval de seus superiores”. Este foi também o testemunho de soldados israelenses no recente relatório da organização de veteranos Breaking the Silence (Quebrando o Silêncio).


Um centro de destribuição de alimentos da UNRWA, no campo de refugiados de Jabalia (norte da Faixa de Gaza) foi atingido em novembro de 2012, durante a “operação Pilar de Defesa” de Israel.


Daí resultaram não só ataques indiscriminados contra casas, mesquitas, igrejas, clínicas e hospitais como também a ao menos sete escolas da UNRWA que serviam de abrigo durante a ofeni. A conclusão é de outro relatório da ONU, publicado em abril, resultante de uma investigação sobre os ataques às suas instalações em Gaza. Dois episódios ilustram a sistematicidade:

Em 6 de janeiro de 2009, o Exército israelense usou morteiros para atacar uma área civil perto de uma escola da UNRWA em Jabalia, onde fica o maior campo de refugiados de Gaza, com 200 mil habitantes. Lá se abrigavam 1.300 palestinos que perderam suas casas nos bombardeios iniciados em dezembro de 2008. O ataque matou ao menos 35 pessoas e foi considerado um episódio de “excessivo e desproporcional uso da força” pelo Relatório Goldstone.

Em 30 de julho de 2014, a UNRWA denunciou o bombardeio de uma escola primária para garotas também em Jabalia. Cerca de 3.300 pessoas abrigavam-se na escola e mais de 15 foram mortas, inclusive crianças, mulheres e funcionários da agência. De acordo com Chris Gunness, porta-voz da UNRWA, o local preciso da escola, para a sua proteção, foi notificada ao Exército de Israel 17 vezes. A última notificação, disse ele, foi feita “poucas horas antes do ataque”. Ou seja, seu bombardeio não foi acidental. No vídeo a seguir, as vítimas são levadas às pressas ao hospital, onde seis já chegaram mortas, e uma mulher vinda da escola indaga: “eles estão nos atacando, para onde devemos ir?” Não há local seguro em Gaza.

“Crianças foram mortas enquanto dormiam. Isso é uma afronta a todos nós, fonte de vergonha universal”, afirmou Krähenbühl em declaração pouco depois do ataque israelense. De acordo com Gunness, aquela fora a sexta vez em que uma das escolas da UNRWA fora atingida. Mesmo assim, o Exército israelense e a Chancelaria empenhavam-se em travestir seus ataques como justificados pelo direito internacional. No dia do ataque à escola de Jabalia, findo o Ramadã, mais de 1.260 palestinos já tinham sido mortos nos bombardeios, que ainda durariam quase um mês.

A principal explicação da lidernaça israelense, numa manipulação habitual do direito internacional humanitário – que regula a guerra e a proteção dos civis –, é a de que os grupos armados palestinos disparavam foguetes contra o território israelense desde as instalações atingidas, tanto em 2014 quanto em 2008-2009. A investigação da ONU concluiu que apenas parte dos casos investigados confirmou a alegação. Os dois episódios descritos indicam que a estratégia israelense é sistemática – e a doutrina militar que a institui será abordada no próximo artigo da série.
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