Um ano da ofensiva de Israel contra Gaza: O massacre anunciado

Os tambores da guerra israelense já anunciavam uma ofensiva contra a Faixa de Gaza dias antes do seu lançamento, em 8 de julho de 2014. Há exatamente um ano, Israel inaugurou a “Operação Margem Protetora”, com 51 dias de bombardeios por ar, terra e mar contra 1,8 milhão de palestinos no território sitiado. Uma série de artigos analisará a terceira grande ofensiva de Israel contra Gaza em cinco anos e o desenrolar das denúncias de crimes de guerra.

Por Moara CrivelentePublicado no Portal Vermelho e na Revista Zunái

Premiê Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa de Israel, Moshe Yaalon.


Premiê Benjamin Netanyahu e o ministro da Defesa de Israel, Moshe Yaalon. Foto: GPO


Um “script” conhecido explica a escalada que culminou na chamada “Operação Margem Protetora”. Em hebraico, a ofensiva foi denominada “Tzuk Eitan”, ou “Penhasco Resoluto”, nome que um casal de Tiberíades, no norte, também deu ao seu bebê nascido naquela terça-feira. O nome, disse no mesmo dia, ao Times of Israel, o professor de sociologia, política e comunicação da Universidade Aberta de Israel, Yagil Levy, “sinaliza o poder, o comprometimento e a resiliência do povo israelense.” Já Steven Poole, que analisou a linguagem da “guerra moderna” num artigo para o diário britânico The Guardian, interpretou a mensagem como uma “garantia da inutilidade da resistência”.

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Importa é que a narrativa israelense para a opção por mais uma guerra contra Gaza – a 12ª desde 1948, quando do estabelecimento do Estado de Israel, contabiliza o historiador francês Jean Pierre Filiu para um dossiê do Journal of Palestine Studies – é paulatina e cuidadosamente construída pelos oficiais e pela mídia massiva nacional e internacional. Pouco ou nenhum questionamento é veiculado sobre os fatos repassados pelas fontes oficiais, frequentemente do Exército ou do gabinete de segurança. Quando há questionamento, disse o colunista Gideon Levy do diário Haaretz, em entrevista por telefone, os próprios leitores, mobilizados por uma narrativa nacionalista de guerra particular em Israel, acossam a dissidência.

Uma ofensiva contra a Cisjordânia precedeu em quase um mês o ataque a Gaza, um estreito território litorâneo, o mais densamente habitado do mundo, sitiado desde 2007. Gaza é, desde aquele ano, governada pelo Hamas, taxado de “organização terrorista” por Israel e alguns dos seus aliados. Aí, explica a jurista Lisa Hajjar, em artigo para o portal Jadaliyya, está a explicação da permissão autoconcedida pelas autoridades israelenses para matar. Indiscriminadamente, segundo soldados israelenses que deram depoimentos à organização de veteranos Breaking the Silence (“Quebrando o Silêncio”), na série intitulada “This was How we Fought in Gaza” (“Foi assim que lutamos em Gaza”).

A operação militar na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental – denominada, com uma referência bíblica, “Guardião Fraterno” – fora lançada em 12 de junho para buscar por três jovens colonos que haviam desaparecido. Desde a partida, o Hamas foi acusado pelo sequestro de Eyal Yifrach, Gilad Shaar e Naftali Fraenkel, residentes de Gush Etzion – um bloco de 22 colônias com mais de 70 mil habitantes, entre Jerusalém e Belém, na Cisjordânia ocupada. Poucos dias depois, os três adolescentes foram encontrados mortos.

Em 10 dias, as forças israelenses prenderam quase 350 palestinos e a violência, tanto por parte dos soldados quanto dos colonos, consumou-se, hedionda. Em 2 de julho, o palestino Mohamed Abu Khdeir, de 16 anos de idade, foi sequestrado em Shufat (Jerusalém Oriental), espancado e calcinado por colonos israelenses. Outros ataques seguiram-se motivados por “vingança”, de acordo com os próprios perpetradores, que ficam, em grande parte, impunes. Entre junho e agosto, 27 palestinos foram mortos, centenas foram presos arbitrariamente e a retomada oficial das demolições de casas como “medida punitiva” – mantida a nível informal – marcou a posição generalizada das autoridades israelenses; 27 pessoas ficaram sem lar (inclusive 13 crianças), de acordo com a organização israelense de defesa dos direitos humanos B’Tselem.

Nova guerra contra Gaza

Neste contexto, desde a Faixa de Gaza, brigadas palestinas lançaram foguetes contra o território israelense. Como de costume, a narrativa israelense explicava que, devido aos ataques palestinos, totalmente removidos de contexto, o Exército – denominado “Forças de Defesa de Israel” – decidira lançar uma grande ofensiva contra Gaza, para “dissuadir” o Hamas de futuras ações armadas.

Em um blogue, as “Forças de Defesa de Israel” compilam acusações contra os palestinos,
por elas culpados por suas próprias mortes. Nesta imagem, destacam crianças no
telhado para acusar o Hamas de usar civis como “escudos humanos”.

“Os ataques serão mais fortes”, dizia “um oficial” ao Haaretz em 7 de julho, quando Israel já lançava mísseis contra o território. “Cada dia que passa será pior para o Hamas. Vamos intensificar os ataques para deixar claro para eles que é do seu interesse encerrar o lançamento de foguetes.” Os túneis subterrâneos – muitas vezes usados para contornar o bloqueio completo do território e importar bens essenciais e até possibilitar o trânsito de pessoas, do contrário presas – foram retratados como grandes ameaças ao povo israelense – “vítimas civis inocentes”, repetiam os noticiários, enquanto os palestinos eram “terroristas”, “escudos humanos” do Hamas ou outros termos que justificassem suas mortes.

De acordo com o relatório publicado em junho deste ano pela comissão de inquérito do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que trabalhou enfrentando as barreiras impostas pelas autoridades israelenses, decididas a não cooperar com a investigação, 1.462 das cerca de 2.200 pessoas mortas pelos bombardeios eram civis, inclusive mais de 500 crianças. Dos 72 israelenses mortos, 66 eram oficiais ou soldados em combate e seis eram civis; um trabalhador tailandês também foi morto.

Bombardeios por ar, terra e mar provocaram uma devastação assombrosa, como mostra a gravação abaixo, feita em março deste ano por um drone. Mais de 10 mil lares, mesquitas, igrejas, escolas, clínicas e cemitérios foram destruídos, assim como a infraestrutura essencial para a sobrevivência. A única planta de energia elétrica de Gaza foi atingida, deixando 1,8 milhão de pessoas, em geral, com apenas três horas de energia por dia, dependentes de geradores movidos a combustível escasso. Os palestinos de Gaza buscavam contar sua história, e o fizeram de forma instrumental para aqueles que se viam confrontados com uma cobertura jornalística simplista, ou determinada pela propaganda de guerra.

Hospitais abarrotados tampouco escaparam dos bombardeios, contou o Dr. Belal Dabour, que atendeu à ligação para a entrevista desde o telhado do hospital Al-Shifaa, o maior de Gaza, onde a equipe trabalhava, em alerta, em turnos de 24 horas. Em 21 de julho, o número de vítimas fatais já passava de 460 pessoas; as autoridades palestinas buscavam publicar listas com seus nomes, idades e residência, para que não se tornassem apenas estatísticas.

Fim da impunidade?

Mustafa Barghouthi, da Iniciativa Nacional Palestina, acompanhando o caso palestino diante do Tribunal Penal Internacional (TPI), mostrou a uma delegação brasileira que visitou a Cisjordânia em abril deste ano dezenas de fotos que evidenciam a devastação e o uso de “bombas de barril” – que causam dano indiscriminado – pelas forças israelenses. Este é exemplo dos crimes de guerra de que é acusado o Exército de Israel, uma vez que o princípio de discriminação dos “alvos” é fundamental no Direito Internacional Humanitário, aquele que regula a guerra.

Barghouthi (dir.) mostra à delegação brasileira imagens da Faixa de Gaza
logo após a ofensiva israelense.
Foto: Moara Crivelente

A juíza Mary McGowan Davis, chefe da comissão de inquérito, considerou que “a extensão da devastação e o sofrimento humano em Gaza foram inéditos e impactarão as gerações futuras.” Na semana passada, o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução – com apenas um voto negativo, o dos EUA – em consequência do relatório publicado em 22 de junho, sobre a situação na Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Leste.

Todos os membros europeus do Conselho, inclusive o Reino Unido, França e Alemanha, votaram a favor do documento, que enfatiza “a necessidade de garantir-se que todos os responsáveis por violações do direito internacional humanitário e dos direitos humanos internacionais sejam responsabilizados, através de mecanismos de justiça penal apropriados, imparciais e independentes, domésticos ou internacionais.”

Desde 1º de abril de 2015, o Estado da Palestina é membro efetivo do TPI e, mesmo que Israel não o seja, o caso já é avaliado, em “exames preliminares”, pela promotoria. Assim como o Conselho de Direitos Humanos da ONU, o TPI sofre represálias das autoridades israelenses e aliados. Os EUA, por exemplo, que tampouco integram a corte e tentaram impedir o estabelecimento da comissão de inquérito, com o único voto negativo durante a votação no Conselho dos Direitos Humanos, em julho de 2014, consideram a medida “contraprodutiva”. É preciso acompanhar e demandar que, desta vez, a histórica impunidade, na base de sustentação deste ciclo de massacre e devastação e da própria ocupação da Palestina, seja por fim interrompida.

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