Guerras enlatadas vs. contestação na cobertura midiática

O debate sobre a responsabilidade dos jornalistas cobrindo conflitos ou guerras já é profuso. Deve ser construtivo ponderarmos o papel da mídia na base do ciclo de violência ou, por outro lado, na promoção de visões alternativas — por exemplo, a da paz como possibilidade. Mas questionar a cobertura frequentemente estereotipada dos conflitos pela “grande mídia” pode ser um mergulho em areia movediça.

Por Moara Crivelente (texto e fotos) | Originalmente publicado na coluna no Portal Vermelho e na página Oriente Mídia. Ambos conscientes do posicionamento que tomam.

Recentemente, assisti a uma mesa-redonda em São Paulo na expectativa daquele debate, e da ponderação sobre a condição dos jornalistas em situação de conflito armado, para produzirem matérias positivamente complexas sobre uma realidade tão “distante” que o jornalista será, para grande parte da audiência, o único contato com aquela realidade. Escrevo “distante” porque os conflitos abordados foram aqueles acontecendo “lá”, de dinâmicas multifacetadas conduzidas por uma miríade de atores, promovidas num sistema de exploração dependente da guerra, mas que raramente é posto em foco.

Abordou-se a Líbia, a Síria, Ucrânia e, ligeiramente, Somália, cujos casos têm sido sintetizados, em grande parte da mídia tradicional, por uma narrativa maniqueísta e simplista. Em alguns casos, o ponto de vista é o de que apenas a “barbárie” é possível para certos povos, e apenas a guerra pode ser a “resposta” até “humanitária” de outros — e só estes têm legitimidade para travá-la.

Ali está o Lourival San’Anna narrando suas aventuras. Depois, André Liohn, analisando, e
Yan Boechat, ponderando.

A “mesa-redonda sobre os Desafios da Cobertura Jornalística em Conflitos Armados e Emergências” trouxe o editor Yan Boechat, o jornalista Lourival Sant’Anna e o fotojornalista André Liohn. A importante iniciativa foi do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), que se debruça, em trabalho árduo, sobre a proteção das pessoas, inclusive em tempos de guerra. Segundo o Portal Imprensa, “a ideia” era “falar sobre os princípios éticos que os jornalistas interessados no tema precisam seguir e mostrar como deve ser feita uma cobertura com enfoque humanitário.” Pretensiosa e atrativa ideia.

Sant’Anna exibira um vídeo repleto de clichês: na Síria, árabes — logo se explica a caracterização — gritavam, com raiva, para uma câmera enquadrada e colada aos seus rostos, para que expressassem descontentamento com o presidente e o governo sírios, em geral denominados o “ditador” e o “regime”, respectivamente.

Liohn falou também da Líbia e referiu-se a Sirte como o lugar “onde o Kaddafi morreu”. É sempre interessante a escolha de termos, e completamente natural, parece-me; é fantasia o conto da objetividade. Para falar do ex-presidente líbio, que foi arrastado para a rua, esfaqueado e executado, em sua cidade natal, era como se Kaddafi simplesmente não fosse mais: “morreu”. Liohn descrevera-se como “criterioso”. Achei curioso. Não se abordou a “intervenção militar” da Otan: bombardeios daquela organização beligerante instrumental para o imperialismo — e aqui pode-se ver um exemplo da minha própria parcialidade.

Um “debate” não parecia ser esperado por Liohn ou Sant’Anna — este, jornalista de O Estado de S. Paulo. O auditório estava cheio de ávidos estudantes interessados na experiência dos jornalistas e na possibilidade de um dia estarem na linha de frente. Sant’Anna e Liohn levaram histórias de aventura e perigo. Boechat fez ponderações sobre as próprias matérias — as suas são “frias” — e a busca por contexto e personagens.

Yan Boechat explica sua preferência por “matérias frias”, com tempo para pesquisar sobre a história,
o contexto e os personagens de um conflito.

Um jovem levantou a mão para a primeira pergunta, depois de uma longa exposição das fotos com uma narrativa “isenta” de Liohn — é assim que ele classifica seu trabalho — e de imagens e um áudio de Sant’Anna em que muitas armas, fumaça, gritaria, muitos tiros e ele próprio eram os personagens centrais. O rapaz perguntou como se prepararia para este trabalho e Sant’Anna respondeu: é preciso ter bons contatos locais e é melhor “levar apenas uma mochila e equipamentos leves”. Liohn concordou. Próxima pergunta.

Quando levantei a mão, é possível que se esperasse algo como: “quero ser como vocês quando eu crescer”. A frustração fez-me ser talvez indelicada: não elogiei a bravura indômita do fotojornalista e do correspondente de O Estado de S. Paulo. Mencionei o curso de um instituto da ONU sobre coordenação civil-militar e a segurança dos jornalistas em situações de conflito e depois comentei sobre a necessidade de maior complexidade na cobertura dos conflitos, menos simplismo e menos propaganda de guerra — um termo que algum deles havia usado antes. Liohn interrompeu-me para dizer que não faz propaganda de guerra. Tentei continuar para questionar a ausência de imagens das manifestações favoráveis ao governo de Bashar al-Assad na Síria — seja pelo que for: pareceria relevante para quem se diz “isento”? Dou aqui uma sugestão de fonte para essa informação; um daqueles meios considerados “imparciais” (não por mim), a BBC.

Liohn ficou irritado. Interrompeu-me mais uma vez: “então, qual é a sua pergunta mesmo?” Expliquei que era só um comentário, mas ele pediu, após mais de uma hora de exposição: “podemos falar da gente agora?” Estava aborrecido porque “todos criticam” e disse que o jornalismo não vai mudar o mundo, mas pode servir para levar a “democracia” — pensei que só Barack Obama dissesse isso atualmente. Perguntei se seria ele o portador da palavra, mas não lembro qual foi a resposta. Já Sant’Anna limitou-se a dizer, olhando para o companheiro: “não houve manifestações massivas a favor do Assad”, em tom de sarcasmo.

Foi então que o termo “orientalista” fugiu de mim — ofendido pela superficialidade da discussão ali — antes que eu o empregasse: Sant’Anna tentou explicar o motivo de os conflitos “acontecerem” em certas regiões, ou naquelas que “conhece”. Para o jornalista daquele diário que vende em média 250 mil exemplares (segundo o Instituto Verificador de Comunicação), “no Mundo Árabe” — uma pseudounidade que parece no mínimo etérea — as “regras são maleáveis” — ele parecia explicar algo difícil, que seria “cultural” — e “há muita mentira, corrupção”…

Já nem certos promotores da guerra usam essa narrativa — embora digam exatamente isso de outras formas — para não soarem os neocolonialistas e/ou imperialistas que são. Saí, dizendo que aquilo era inaceitável. Ficou evidente que não falta só leitura sobre a história dos conflitos que se pretende cobrir e a ponderação sobre os diversos atores envolvidos na promoção da guerra ou na busca por alternativas. Arrependi-me por ter saído. Será a palavra — na “palestra” e na mídia de massas, na interpretação da “realidade” e na sua comunicação — ainda mais deles do que nossa? Que se impulsione uma discussão sobre que discursos importam, sobre a promoção da guerra atada a essas narrativas e, claro, sobre a dificuldade de um debate. Os conflitos, as guerras e suas vítimas não devem caber em matérias enlatadas, por maior que seja o risco enfrentado pelo jornalista que a redige.

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