Estrutura do novo governo de Israel: Pela ocupação e contra a paz

O toque final do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu foi a nomeação, nesta segunda-feira (18), do ministro do Interior, Silvan Shalom, como responsável por eventuais negociações com os palestinos. O ministro já afirmou oposição, assim como Netanyahu, ao estabelecimento do Estado da Palestina. O restante do gabinete aprovado na semana passada evidencia que a ocupação da Palestina é o principal programa de governo. Vejamos porquê.

Por Moara Crivelente | No Portal Vermelho 

Primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu discursa com imagem de fundo do primeiro premiê de Israel, David Ben-Gurion.   

Primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu discursa com imagem de fundo do primeiro premiê de Israel, David Ben-Gurion. Foto: Kobi Gideon/GPO

Após a reeleição do partido de extrema-direita de Netanyahu, o Likud (“Consolidação”), em 17 de março, uma espiral decadente delineou mais claramente para o resto do mundo o que esperar com relação à possibilidade de diplomacia em prol de um “processo de paz”: mais deterioração. O Ano Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, definido pela ONU em 2014, terminou trazendo à Palestina novos recordes no massacre do seu povo e na institucionalização da violência exercida pela “Potência Ocupante”, Israel.

Mas a turbulência no seio do governo de Netanyahu, que o levou a convocar eleições antecipadas, passou nas análises de uma oportunidade de mudança e abalo do “status quo” – a agressiva ocupação da Palestina – para uma guinada ainda mais ao extremo. Isso ocorreu mesmo com a expressiva votação nos partidos ditos de “centro-esquerda” e na importante colocação da Lista Conjunta – com quatro partidos árabes e misto – para o Parlamento (Knesset).

A lista a seguir, expandida a partir da publicada pelo crítico blog israelense +972,elucida um pouco da “previsão do tempo” na Palestina, onde a responsabilização da liderança israelense pelos crimes de guerra na base do seu regime de ocupação ainda enfrenta desafios. O racismo e a segregação tanto nos territórios ocupados quanto em Israel evidenciam-se tanto pelos discursos eleitorais quanto pela conclusão das negociatas de Netanyahu para a formação do novo gabinete de governo, aprovado na semana passada pelo presidente Reuven Rivlin (Likud).

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro: Gabou-se por ter sabotado os Acordos de Oslo da década de 1990 – quando fez discursos inflamados e de incitação inclusive contra o premiê da época, Yitzhak Rabin – e garantiu que nunca retirará as tropas da Cisjordânia, além de ter prometido, na véspera da eleição, em março, que não permitirá o estabelecimento do Estado da Palestina durante o seu governo. Referiu-se à população palestina de Israel, mais de 20% do total, como uma ameaça demográfica e eleitoral, instando a população judaica a votar – porque “os árabes estão indo em massa para as urnas.” Além de ordenar mais duas operações militares contra a Faixa de Gaza e a Cisjordânia – matando mais de 2.200 e 75 pessoas, respectivamente, em 2014 – também montou um novo governo extremista.

Ayelet Shaked, ministra da Justiça, do partido Habayit Hayehudi (“Lar Judeu”), liderou diversos ataques contra organizações locais de defesa dos direitos humanos, impulsionou uma lei “constitucional” que priorizaria a identidade judaica em detrimento da democracia, elaborou uma legislação para enfraquecer a Corte Suprema e apoia a anexação de 62% da Cisjordânia, além de ter declarado nas redes sociais apoiar, essencialmente, o genocídio do povo palestino, durante a ofensiva contra Gaza em 2014.

Uri Ariel, do Lar Judeu, ministro do Desenvolvimento Rural e chefe da Divisão de Colônias da Organização Mundial Sionista, foi ministro da Construção no governo passado – que buscou recordes na expansão dos assentamentos – e uma liderança no conselho de colônias na Cisjordânia. Declarou que “não haverá dois Estados” e é ele mesmo um colono. Espera um aumento grande demográfico da população judaica na Cisjordânia e deu aos colonos informações secretas sobre o movimento das tropas do Exército para ajudar a sabotar a demolição de instalações consideradas ilegais até mesmo por Israel. Ariel apoia o “Movimento do Templo”, que prega a destruição da importante mesquita Al-Aqsa, em Jerusalém, para a construção do Templo Judeu, que teria existido no mesmo local há cerca de dois mil anos.

Aryeh Deri, ministro da Economia, do partido ultraortodoxo Shas – acrônimo de Shomrei Sfarad, Guardiões Sefarditas (da Torá) – terminou seu mandato anterior como ministro do governo com uma sentença de três anos por suborno (e cumpriu apenas 22 meses).

Naftali Bennett, ministro da Educação, do Lar Judeu, abaixo, foi ministro da Economia do governo anterior, causando grande turbulência durante o inócuo período de negociações com os palestinos, entre julho de 2013 e abril de 2014. Lidera um movimento pela anexação de 62% da Cisjordânia, apoia assassinatos extrajudiciais e disse: “Matei muitos árabes na minha vida, não há problemas nisso”. Garantiu que fará do enraizamento de valores religiosos sionistas e de direita como sua prioridade enquanto ministro da Educação e já insinuou uma comparação entre árabes a macacos.

Yoav Galant (a seguir), ministro da Construção, chefe da Administração de Terras de Israel, do recém-formado Kulanu (“Todos Nós”, de direita), foi general do Exército no Comando do Sul e havia sido nomeado para o cargo de Chefe do Estado-Maior do Exército, mas foi impedido por Netanyahu devido a escândalos sobre seu envolvimento com o uso de terras públicas para construir uma entrada para a sua casa. Insinuou que se fosse ministro da Defesa, lançaria outra guerra contra Gaza e foi o centro de outro escândalo, em que um grupo de generais tentou passar por cima do escalão político para nomear o próximo Chefe do Estado-Maior.

Eli Ben-Dahan, vice-ministro da Defesa, rabino do Lar Judeu, foi posto à frente da “Administração Civil” do Exército, o governo militar israelense encarregado da Cisjordânia ocupada. Disse que os palestinos “são bestas, não são humanos”, defende a supremacia judaica e vive em uma das colônias mais controversas de Jerusalém Oriental, Har Homa, cuja construção é considerada estratégica para impedir a expansão da cidade palestina de Belém e sua conexão com Jerusalém.

Tzipi Hotovely, ministra interina das Relações Exteriores, do Likud, defende a anexação de toda a Cisjordânia como parte de uma “solução” de Estado único e judeu. É uma ativista anti-miscigenação e às vezes trabalha com grupos extremistas como a Lehava (Organização para a Prevenção Contra a Assimilação na Terra Santa) e simpatizantes de Meir Kahane (rabino ultrassionista e ex-parlamentar que liderou milícias na década de 1970 e fundou a Liga de Defesa Judaica nos EUA, acusada pelo FBI de atos de terrorismo). Hotovely também promoveu uma lei para mudar os nomes árabes de bairros de Jerusalém Oriental para hebraico.

Ze’ev Elkin, ministro de Assuntos Estratégicos, do Likud, liderou muitas tentativas legislativas antidemocráticas, inclusive a infame “lei do boicote”, aprovada em 2011 pelo Parlamento, segundo a qual qualquer indivíduo pode processar quem apelar pelo boicote a Israel ou a “áreas sob o seu controle” – como as colônias.
Miri Regev, ministra da Cultura e do Esporte, do Likud, chamou os parlamentares árabes de “traidores” e referiu-se a imigrantes africanos em busca de asilo em Israel como “câncer”.
Moshe Ya’alon, ministro da Defesa – mesmo cargo ocupado no governo anterior – do Likud, declarou: “Eu não estou buscando uma solução [para o conflito], estou procurando uma forma de geri-lo”. Ele descreveu as propostas de mediação do secretário de Estado dos EUA como “messiânicas e obsessivas”, apesar da tendenciosidade favorável a Israel, e desencorajou as investigações sobre as acusações de crimes de guerra cometidos pelos soldados israelenses. Além disso, insinuou em 2013 que ataques de palestinos contra israelenses são resultados do “processo de paz”, classificado por ele como “ameaça securitária” para Israel.

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