Crianças palestinas e soldados israelenses expõem crimes da ocupação

Os palestinos depositaram neste fim de semana sua 542ª carta às Nações Unidas sobre a situação sob a ocupação israelense, com foco para os abusos contra as crianças. É o caso de Ahmad Zaatari, menino de 7 anos de idade detido e interrogado por quase oito horas em Jerusalém Oriental, entre outros. O esforço de denúncia acompanha os novos testemunhos de soldados israelenses sobre os crimes de guerra perpetrados na última ofensiva contra a Faixa de Gaza.

Por Moara Crivelente | Publicado em 4 de maio de 2015 no Portal Vermelho

Foto: Abbas Momani / AFP
Malak al-Khatib, menina palestina de 14 anos, foi condenada a dois meses de prisão e a pagar uma multa de US$ 1.500 por Malak al-Khatib, menina palestina de 14 anos, foi condenada a dois meses de prisão e a pagar uma multa de US$ 1.500 por “atirar pedras”. Malak já cumpriu a a sentença e foi liberada.

A demanda pela responsabilização da liderança israelense pelo cotidiano violar dos direitos humanos precisa envolver um objetivo amplo de luta pela justiça. O que se discute já não é só a eventual e aparentemente inalcançável “solução do conflito” ou o perpétuo “processo de paz”, mas principalmente, a justiça, já que o mundo parece finalmente atentar-se para a insustentabilidade da impunidade israelense.

No processo, a denúncia das graves violações acumula-se na lista de episódios estarrecedores que – desde as grandes ofensivas militares cada vez mais cruentas até as práticas cotidianas de uma ocupação que impõe permanentemente o “estado de exceção” à população ocupada – têm chocado cada vez mais a chamada “comunidade internacional”.

Ganha cada vez mais atenção, por exemplo, o impacto da ocupação israelense sobre as crianças palestinas. A carta de número 542 encaminhada em 1º de maio pelo embaixador palestino Riyad Mansour, chefe da Missão de Permanente de Observação do Estado da Palestina na ONU, reivindica a inclusão da situação no Relatório Anual da Secretaria Geral sobre Crianças em Conflitos Armados. “Acreditamos que este é um passo importante e necessário para responsabilizar os perpetradores de crimes contra as crianças por suas ações, contribuindo para os esforços pelo fim da impunidade,” afirma o documento.

De acordo com a Associação de Apoio aos Prisioneiros e Direitos Humanos “Addameer”, dos mais de seis mil palestinos presos em cárceres israelenses, 163 são crianças (13 delas são menores de 16 anos). Muitas passaram por situações como a descrita pela carta do embaixador Mansour. O primo de Ahmad, Mohamad, de 12 anos, teve menos sorte e passou ainda mais tempo detido, sem poder se alimentar ou beber água durante o interrogatório. Os pais só foram informados do paradeiro dos dois meninos horas depois da sua detenção. Mas o quadro ainda é mais preocupante.

Foto: Reuters

Palestinos fazem o funeral de Mohamed Dudin, garoto de 14 anos morto pelas tropas israelenses durante ofensiva em Hebron, na Cisjordânia, 20 de junho de 2014. 
Mansour sublinha também a letalidade do abuso da força pelas autoridades israelenses contra as crianças. “Em 27 de abril, Mohamed Murad Yahiyawas, de 18 anos, foi atingido e morto pelas forças israelenses ocupantes na vila de Al-Araq, a oeste de Jenin, quando voltava para casa de um casamento. Em 26 de abril, Mohammed Abu Ghnem, de 17 , foi atingido e morto em um posto de controle na Jerusalém Oriental ocupada. Em 28 de abril, Fadi Abu Mandil, de 14, foi atingido em sua casa, no centro da Faixa de Gaza, quando as forças ocupantes abriram fogo contra agricultores palestinos, e continua em estado crítico.” O texto continua para contar casos igualmente ultrajantes de violência contra crianças palestinas, apelando pelo compromisso internacional na sua proteção.
Do outro lado do bloqueio, mais crimes
Em um novo relatório com testemunhos de soldados, a organização israelense de veteranos “Quebrando o Silêncio” (“Breaking the Silence”, em referência ao código de silêncio do Exército) voltou a expor a conduta das forças armadas israelenses, desta vez na Faixa de Gaza. A organização centrou-se nas denúncias dos crimes de guerra cometidos pelas “Forças de Defesa de Israel” (FDI), como se intitula o Exército israelense, durante a ofensiva de 51 dias, entre julho e agosto de 2014, que matou mais de 2.200 palestinos (83% civis). Uma comissão do Conselho de Direitos Humanos da ONU tenta investigar, com grande dificuldade, a miríade de denúncias de graves violações durante a ofensiva e antes dela, em Gaza e na Cisjordânia. Em atualização recente, a comissão explicou precisar estender o prazo para a entrega do relatório até junho.
Não é à toa que no início de abril o advogado do Exército responsável por avaliar a condução da “operação Margem Protetora” de 2014 disse ao jornal israelenseHaaretz que jamais o classificará de “o Exército mais moral do mundo”, jargão cunhado por suas equipes de propaganda. O major-general Danny Efroni está encarregado de averiguar episódios como aqueles denunciados por cerca de 60 soldados que testemunharam sobre as atrocidades que cometeram ou presenciaram na Faixa de Gaza.Um dos soldados afirma que, apesar do esforço de marketing do Exército sobre o cumprimento das normas internacionais para a condução da guerra, “todos os que se encontrassem na área das FDI, que as FDI tivessem ocupado, não eram civis. Essa era a inferência.”
Casos estarrecedores são narrados pelos soldados para expor a destruição arbitrária de casas, inclusive com tanques, e o disparo indiscriminado contra civis, por vezes até como ações de “vingança”. Um episódio descrito foi a ordem de um comandante para uma salva de tiros, “como fazem nos funerais”, quando um soldado morreu em combate, “mas com artilharia, contra as casas.”Outros relatos referem-se ao assassinato de civis devido às frouxas ou ignoradas “regras de combate”, como quando um veículo não tripulado (drone) foi enviado para identificar duas mulheres que falavam no celular, na rua, em seguida alvejadas.
O fato de estarem sozinhas e portarem apenas celulares foi tido como suspeito. Ainda que estivessem desarmadas, “elas foram contabilizadas como ‘terroristas’,” disse um soldado.Estes são episódios estarrecedores da luta cada vez mais fortalecida pela denúncia desses crimes e a demanda por justiça. Tratar o assunto enquanto condicionante para a eventual “solução do conflito” é estratégico. Há tempos se rarefazem os episódios em que os líderes sentam-se à mesa para as meta-discussões do que poderá ser abordado no longo debate sobre o fim do despojo e do massacre dos palestinos, com o papel visivelmente negativo desempenhado pelo “mediador-aliado” (de Israel) representado pelos Estados Unidos.
A estratégia alternativa é o direito internacional, garantiu em entrevista o ex-chanceler palestino Nabil Shaath, em dezembro de 2014. Assim como a liderança israelense desenvolveu a habilidade de instrumentalizar as normas internacionais e a narrativa para legitimar sua ofensiva contra o povo palestino – prática nada inédita, diga-se de passagem – os palestinos também têm mostrado saber empregar o instrumento em sua luta por libertação. A paz passa necessariamente pela responsabilização e pela justiça.
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