Palestina resistente: Brasileiros encontram a luta por libertação

Cruzar a fronteira do rei, da Jordânia para a Palestina, foi como retomar uma longa jornada. A ocupação israelense dos territórios e das vidas dos palestinos é multidimensional, onipresente e traz custos elevadíssimos à dignidade e à humanidade, e precisa ser investigada constantemente. A resistência nacional, entretanto, não se deixa dobrar.

Por Moara Crivelente, de Ramallah (Palestina) | publicado em coluna no Portal Vermelho

Um grupo de brasileiros representantes de diversos movimentos sociais – inclusive do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) – viajou à Palestina com o intuito de entrar na Faixa de Gaza. Na véspera, enquanto participávamos do Fórum Social Mundial na Tunísia, recebemos a notícia de que o governo israelense, que controla duas passagens para o estreito território sitiado há oito anos, não permitiria a entrada demandada através da Chancelaria brasileira. Israel alegou “motivos de segurança” e a proximidade do feriado religioso Judaico, o Pessach, no início de abril.

Colônia israelense de Beit El. Foto: Moara Crivelente

Não bastasse, à entrada da Cisjordânia, dois membros do grupo, Soraya Misleh e Mohamad El-Kadri, da Frente em Defesa do Povo Palestino, foram barrados e banidos do retorno por cinco anos. O Itamaraty pronunciou-se a respeito; o racismo e a segregação aos quais são submetidos os palestinos já ficaram demonstrados na fronteira, com a inescrupulosa exclusão de dois descendentes de árabes.

A Faixa de Gaza não ficou esquecida enquanto visitávamos uma vila em dia de protesto contra a ocupação, as famílias de prisioneiros ou recém-libertos – como o caso de Ra’ed Zibar, membro da resistência da Frente Popular pela Libertação da Palestina (FPLP) – e representantes de entidades sociais, ou da Organização pela Libertação da Palestina (OLP). Embora tivéssemos a nova tarefa de coletar novas informações e expressar apoio firme à luta palestina pela paz e contra a ocupação, na Cisjordânia, impedidos de entrar em Gaza, a necessidade de abordar a ocupação por completo ficou evidenciada a todo o momento.

A estratégia de fragmentação dos territórios, ou melhor, do Estado ocupado da Palestina, serve à tentativa sionista de dar por encerrada a discussão, como se houvesse uma discussão, e não centenas de resoluções da ONU e outras instituições que não só condenam as práticas da ocupação como reconhecem o direito dos palestinos de resistir.

Posto de controle militar israelense em Calândia. Foto: Moara Crivelente

Esses são, claro, temas essenciais no acompanhar da causa palestina, mas às vezes ficam perdidos nas análises mais profundas, também necessárias, sobre os matizes que agudizam as relações entre israelenses e palestinos e a própria ocupação sionista da Palestina. A aliança da maior potência bélica mundial – os EUA, que se apresentam como mediadores sem qualquer legitimidade – está abalada, mas não comprometida. Evidências disso são abundantes. Ainda, a radicalização da sociedade israelense assusta alguns observadores. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e seu partido de extrema-direita reeleito, Likud, agravaram a retórica para rechaçar agora abertamente o Estado da Palestina. Entretanto, a ponderação sobre a expressiva votação da Lista Conjunta de partidos árabes e um misto nas eleições de março em Israel e o maior número de votos para partidos ditos de “esquerda” é de elevada importância.

Netanyahu disse o que achou necessário para recobrar o posto nas eleições. Por outro lado, isso lhe custou maior apoio internacional à causa palestina, agora levada aos tribunais internacionais para desvelar décadas de crimes de guerra na base de sustentação da ocupação. Em 1º de abril se efetivou a adesão do Estado da Palestina ao Estatuto de Roma, constitutivo do Tribunal Penal Internacional (TPI), iniciativa que custou a suspensão do repassasse de mais de US$ 130 milhões por mês, desde dezembro, em impostos recolhidos pela administração israelense, como sanção. Os salários de milhares de palestinos ficaram comprometidos.

Mesmo assim, inúmeros casos foram dirigidos ao TPI como amostras dos crimes perpetrados não só pelo Exército como por todo o aparato administrativo israelense nos territórios palestinos ocupados. Naquele dia, a reunião em Ramallah com Mustafa Barghouthi, diretor da Iniciativa Nacional Palestina, expunha mais uma vez, em imagens e números, a devastação na Faixa de Gaza, na terceira grande ofensiva israelense em cinco anos – que matou mais de 2.270 palestinos, sendo 83% civis e 580 crianças, com 91 famílias dizimadas, além de jornalistas e pessoal médico; são flagrantes crimes de guerra, apesar do contorcionismo israelense para justificá-los. Uma comissão de inquérito do Conselho de Direitos Humanos da ONU investiga as denúncias com grande dificuldade.

Soldados israelenses em Jerusalém. Foto: Moara Crivelente

Barghouthi também explicou os vários instrumentos da segregação nos territórios palestinos, com referência ao uso desigual da energia elétrica e dos recursos aquíferos – em grande parte retirado dos próprios reservatórios palestinos, a quem a água é vendida por valor superior ao da taxa cobrada às colônias israelenses. Além disso, a malha rodoviária exclusiva para israelenses corta a Cisjordânia obrigando os palestinos a mais uma vez desviarem dos seus caminhos, além de já terem de mover vilas e plantações de lugar para a passagem do muro construído desde 2002 – a “barreira de segurança”, no linguajar israelense – com oito a 12 metros de altura e 800 quilômetros de extensão.

As permissões para movimentação ou a construção, a emissão de documentos de identidade e até mesmo a configuração das famílias passam pelo crivo das autoridades israelenses. Bases e “áreas militares fechadas” roubam ainda mais terras, além daquelas dedicadas às cerca de 140 colônias – algumas consideradas ilegais pelo próprio governo israelense, mas que recebem luz e água – onde residem quase 600 mil israelenses.

Tentar criar uma realidade irreversível é o principal intuito da ocupação, cujas leis usam termos religiosos – como “Eretz Israel”, a Grande Israel de onde a Palestina seria eliminada – para expandir o controle a frações importantes, como a cidade de Jerusalém, anexada em 1967 e em 1980 – embora a Lei de Jerusalém não use abertamente o termo “anexação”.

Base israelense na Cisjordânia. Foto: Moara Crivelente

Numa conversa, um policial israelense que tentava ser simpático – uma raridade – à entrada da esplanada das mesquitas, onde fica Al-Aqsa, alegava que “Israel quer a paz e, por isso, permite que a Jordânia controle a esplanada e respeita o local, só adentrando quando necessário”. O policial, que parecia acreditar no título de Jerusalém, “capital una e eterna de Israel”, referia-se 1) a um reduzido local de Jerusalém Oriental, palestina, mas ocupada, onde os policiais e soldados israelenses não deveriam entrar, segundo acordo com a Jordânia e 2) às vezes em que a presença de israelenses leva a confrontos e à invasão dos soldados para conter, principalmente, os palestinos, que acabam sendo banidos do local por alguns dias.

A fragmentação é um dos principais instrumentos, físicos e imaginários, para “quebrar a resistência” e a unidade nacional entre os palestinos. Não tem funcionado, porém. Alternativas nascem em grande dinâmica dos partidos políticos e dos movimentos sociais. É o caso dos comitês populares e de organizações como a União da Juventude Palestina, que realiza projetos nas áreas rurais mais impactadas pela ocupação para apoiar a geração de renda, a produção de comida – em alternativa ao consumo de produtos israelenses – e a permanência das pessoas, em resistência contra a expulsão.

As autoridades palestinas também intensificam esforços internos, como a recente resolução do Comitê Central da OLP, que adere ao boicote aos produtos israelenses e insta ao fim da chamada “cooperação securitária” com Israel, prevista nos Acordos de Oslo da década de 1990 e que aos palestinos tem se evidenciado como uma aceitação da ocupação, imposta por Israel e por seus parceiros “mediadores” . A resistência fortalece-se nas iniciativas nacionais e no aumento da solidariedade internacional. Se as portas da diplomacia com Israel são fechadas pela própria liderança israelense – a contragosto de uma grande porção da sociedade, que fique claro – o mundo deve oferecer alternativas e intensificar esforços pelo fim da impunidade e da ocupação israelenses na Palestina.

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