Política doméstica de Israel acentua disputas sobre agressão a Gaza

As variações em cenários políticos domésticos – ou o congelamento de movimentos oposicionistas – são vastamente analisadas em contexto de guerras ou ofensivas militares. Alguma esquizofrenia é frequentemente notada no esforço de “unidade nacional” diante do “esforço de guerra”, que envolve a mídia de forma tão eficiente na reprodução do discurso oficial sobre a ofensiva. É mais uma vez o caso em Israel.

Por Moara Crivelente | No Portal Vermelho

Foto: Maan
Em 2013, quando o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu forjou sua coalizão de governo com aliados e opositores com dificuldades, já sabia dos desafios, mas contava com uma posição absoluta: qualquer agressão contra os palestinos teria apoio suficiente. O que ele talvez não esperava era a disputa em torno da intensidade e da duração das ofensivas.

Enquanto ensaia um encerramento triunfante que será provavelmente mais difícil de encenar do que a tal “unidade nacional”, Netanyahu teve de negociar às escondidas a extensão de cinco dias na pausa dos bombardeios repetidos há cinco semanas contra a Faixa de Gaza, tomando dos palestinos cerca de duas mil vidas– entre 70% e 80% de civis, inclusive mais de 400 crianças – e devastando novamente o território sitiado. Ele também já demonstrou o óbvio: não vai cooperar com a missão de investigação da ONU a ser liderada pelo canadense William Schabas, nomeado no início da semana e já encurralado pela mídia israelense.

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Ministros da coalizão de governo reclamam mais uma vez o assombroso: ignorar o Hamas, partido à frente do governo em Gaza taxado de “organização terrorista”, ou melhor, “eliminá-lo”, e não negociar a extensão do cessar-fogo. A contrariedade aconteceu, porém, com mais cinco dias de “trégua”, conforme foi anunciado pelos mediadores egípcios nesta quinta-feira (14), aparentemente sem o conhecimento do resto das autoridades israelenses.

Netanyahu não deliberou com o seu privilegiado gabinete de “Segurança” sobre o acordo e, ao contrário do que prometera, não deixará Gaza desmilitarizada nem terá “eliminado” o Hamas. Sua decisão foi tomada, mas provavelmente acanhada porque não entregou aos aliados e rivais mais agressivos que compõem sua instável coalizão o que prometeu como objetivo de mais um massacre dos palestinos, inaugurado oficialmente sob o nome de “operação Margem Protetora” em 8 de julho, primeiro com bombardeios aéreos.

O primeiro cessar-fogo de três dias, que entrou em vigor em 5 de agosto, já era apresentado pelas autoridades israelenses enquanto “vitória” sobre os palestinos: foi ordenada a retirada dos tanques, milhares de soldados e da artilharia pesada que estiveram devastando Gaza e matando ainda mais civis desde 17 julho, quando invadiram a região sitiada por terra. O governo anunciava que seu “objetivo primordial”, apresentado declaratoriamente como a destruição dos túneis subterrâneos, estava praticamente completo.

Entretanto, assim que o Hamas recusou a rendição e reafirmou o direito dos palestinos de resistir à ocupação, ao cerco completo imposto há quase oito anos e ao massacre repetido frequentemente por Israel, as bombas voltaram a ser despejadas sobre Gaza pela via aérea, a marítima e também a terrestre, através das dezenas de tanques que foram deixados na fronteira.

“Eliminar o Hamas”

Para o chanceler Avigdor Lieberman, um dos maiores rivais de Netanyahu e que anunciou recentemente a retirada do seu partido (Yisrael Beiteinu, “Israel é Nosso Lar”) da coligação com o do premiê, Likud (União, ou Consolidação), o final desejável da operação “Margem Protetora”, como ficou conhecida em inglês (em hebraico, o título é “Penhasco Poderoso”), seria a eliminação do Hamas e a entrega de Gaza, desmilitarizada, à gestão da ONU.

Isso levou a uma das primeiras grandes derrotas políticas de Netanyahu, cujo partido perdeu a maioria no Parlamento e ficou empatado com o partido Yesh Atid (“Há um Futuro”), do ministro das Finanças Yair Lapid, igualmente protetor da colonização na Palestina. Em acordo com a agenda do partido Habayit Hayehudi (Lar Judeu), Lapid garantiu, nesta semana, mais 20 milhões de shekels (R$ 13 milhões) às colônias e R$ 39 milhões aos conselhos religiosos, segundo o jornal israelense Haaretz.

Os membros da coalizão de governo do primeiro-ministro ameaçaram repetidamente este aparato devido a, de um lado, o que consideravam “posições demasiado brandas” com relação à Palestina – é o caso do ministro da Economia Naftali Bennett, extremista representante dos colonos, do Lar Judeu – e, de outro, de “prejudiciais para Israel”, como a extensão da ocupação e a protelação das negociações com a Autoridade Palestina – caso da ministra da Justiça Tzipi Livni, que faz duras críticas ao governo neste sentido, mas integra o aparato colonizador.

Quando Netanyahu e seu ministro da Defesa Moshe Ya’alon anunciaram a ofensiva contra Gaza oficialmente, a única contraposição que se ouvia do seio do governo – e da mídia dominante – era sobre a intensidade dos bombardeios e a sua duração, ou sobre os objetivos finais do novo massacre. Alguns chegaram a expressar o âmago do seu ódio racista contra os palestinos, outros apoiaram a ofensiva com cautela, mas apoiaram.

É aí que está o tal “esforço de guerra” conduzido por uma opinião pública majoritariamente favorável a ela. As críticas são esparsas ou, quando mais veementes, são censuradas ou sofrem represálias, seja nas ruas ou nos meios de comunicação, que funcionam como porta-vozes da propaganda. Foi assim para sustentar a terceira ofensiva contra Gaza em cinco anos – com mais de 3,5 mil mortes no total – e já é assim, há semanas, no rechaço às acusações de crimes de guerra perpetrados pelas forças israelenses, tanto dentro do país quanto nos discursos dos aliados.

Entretanto, nos momentos finais da ofensiva, uma cacofonia é elevada no âmbito interno – com o chacoalhar das alianças políticas domésticas ou das oposições que despertam após o torpor da guerra – e no internacional, com patrocinadores como os Estados Unidos diretamente implicados no massacre dos palestinos. Essa cacofonia, porém, deverá ser avaliada com atenção para que não se repita ainda outra tragédia da história dos palestinos: a impunidade dos ocupantes e opressores.

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