Em Israel, Bloco da Paz condena massacre e exige libertação palestina

Em 1993, Uri Avnery, ex-membro do Parlamento de Israel, lançou o Gush Shalom, “Bloco da Paz”, para “influenciar a opinião pública israelense e conduzi-la à paz e à reconciliação com os palestinos,” denunciando a ocupação e pressionando pelo reconhecimento do regime de segregação. Em conversa com o Vermelho, Avnery explica a atuação do bloco no momento em que manifestações contrárias e favoráveis à atual ofensiva contra Gaza disputam terreno em Israel.

Por Moara Crivelente | publicada em 3 de agosto de 2014 no Portal Vermelho 

Uri Avnery forma parte do Bloco da Paz (Gush Shalom), que realiza manifestações pela reconciliação com os palestinos e pela solução do coflito.

Avnery forma parte do Bloco da Paz (Gush Shalom), que realiza manifestações pela reconciliação com os palestinos e pela solução do conflito. Foto: Guila Flint/Opera Mundi 


O Gush Shalom demonstra-se como um projeto agregador com o objetivo de influenciar a opinião pública pelo fim da ocupação e pela paz com os palestinos. Reconhecer a segregação e a ocupação está completamente fora da pauta para o governo de Israel, que agora se vê envolto a novas denúncias de crimes de guerra contra os palestinos de Gaza.

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O território sitiado é outra vez alvo dos bombardeios por ar, terra e mar efetuados pelo Exército de Israel, o “Exército moral”, como se promovem as “Forças de Defesa de Israel”. Nos últimos cinco anos, é preciso enfatizar, o governo israelense matou mais de três mil palestinos em Gaza, entre as três “operações militares” oficiais e ataques eventuais.

“As bombas estão caindo outra vez,” escreveu Uri Avnery, poucos dias depois do anúncio da nova ofensiva, “Margem Protetora”, em artigo que intitulou de “Atrocidade”, referindo-se também ao assassinato do adolescente palestino Mohammed Abu Khdeir, de 15 anos, que foi calcinado por extremistas israelenses em Jerusalém.

“Outra vez, sem qualquer propósito. Outra vez, com a certeza de que, quando terminar, tudo será essencialmente o mesmo de antes,” continua. A impunidade da liderança israelense por trás dos massivos crimes de guerra suficientemente apoiados em evidências expostas inclusive pela Organização das Nações Unidas é uma constante nos apelos dos palestinos e dos movimentos globais que exigem o fim do massacre de todo um povo.

Outro artigo publicado pelo ativista israelense, no sábado (2), dizia que, nas repetidas ofensivas de Israel, “nós alcançamos todos os nossos objetivos – mas os nossos objetivos mudam o tempo todo. No final, a vitória será completa.” Avnery refere-se à regressão os objetivos declarados pelo governo israelense para a “operação militar”, que agora se resumem à destruição dos túneis subterrâneos da resistência.

“Quando a guerra começou,” continua, “nós só queríamos ‘destruir a infraestrutura do terror’. Depois, quando os foguetes [da resistência palestina] alcançaram praticamente todo Israel (sem causar muito dano, principalmente devido ao miraculoso sistema de defesa antimísseis), o objetivo de guerra era destruir os foguetes. Quando o Exército cruzou a fronteira para Gaza para isso, uma enorme rede de túneis foi descoberta. Tornou-se o principal alvo,” apresentado como a prova cabal do “terrorismo” palestino, embora túneis sejam usados em confrontos desde a Antiguidade, principalmente quando há tamanha assimetria de poder. “Quando os britânicos [potência colonial na região até 1947] aprisionavam os líderes das milícias hebraicas, vários escaparam através dos túneis”, pontua Avnery.

Neste cenário, o choque é patente pelo aumento acelerado do número de mortes entre os palestinos – majoritariamente civis e centenas de crianças – e pela devastação de milhares de lares, centenas de mesquitas, igrejas, escolas – muitas servindo de abrigos para aqueles que receberam advertências do Exército de Israel para deixar suas casas prestes a serem bombardeadas – e hospitais abarrotados, entre feridos e mortos.

Ainda assim, diversas vozes insistem em lembrar que o massacre atual é um episódio de uma sucessão prolongada e que as “tréguas” negociadas a portas fechadas com a pressão das potências aliadas a Israel – como os Estados Unidos – são insustentáveis sem uma mudança estrutural da situação, a começar pelo fim do bloqueio à Faixa de Gaza e da ocupação da Palestina.

Libertação do Estado da Palestina

“A ideia de uma solução de dois Estados precisa ser alcançada,” diz Avnery, em contato por e-mail. A mídia israelense, assim como a educação básica e o discurso oficial propagado de forma muitas vezes acrítica são centrais na análise do apoio recebido pela extrema-direita no governo israelense, de um público desinformado ou incitado contra os palestinos.

Foto: WikiCommons

“É verdade que a mídia desempenha um papel liderando e conduzindo ondas extremistas,” continua Avnery, “como a raiva pela libertação de prisioneiros palestinos ou as campanhas que pedem ‘deixem o Exército vencer’, sempre que um soldado é punido por abuso contra os palestinos (o que quase nunca acontece se não for filmado para o mundo inteiro ver).”

O ativista israelense saudou o acordo para a formação de um governo de unidade nacional assinado entre a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e o Hamas, partido à frente do governo em Gaza e que Israel classifica de “organização terrorista”. O Hamas e outros partidos islâmicos haviam rompido com a OLP após disputas e confrontos internos que sucederam as eleições parlamentares de 2006.

Sobre as negociações entre Israel e a Autoridade Palestina, cujo último período – de julho de 2013 a abril de 2014 – resultou apenas na extensão da ocupação israelense sobre os territórios palestinos, com aproximadamente 14 mil novas casas construídas nas colônias ilegais na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, Avnery voltou a enfatizar a inevitabilidade da solução de dois Estados, já que a existência de apenas um, como se vê atualmente, resulta “em um Estado de apartheid”.

Entretanto, a oposição interna ao governo israelense ao reconhecimento do Estado da Palestina baseia-se principalmente em partidos e lideranças de extrema-direita, ultranacionalistas e racistas que promovem ativamente a ocupação, sobretudo através da expansão das colônias.

Pesquisas de opinião recentes indicam que a extrema-direita e a guerra de Israel contra Gaza têm apoio massivo, mas outras enquetes também concluíram, recentemente, que a maioria dos israelenses quer uma solução de dois Estados. “Isso pode mudar enquanto o isolamento internacional [de Israel] torna-se mais doloroso,” diz Avnery.

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