Intransigência israelense mantém impasse no “processo de paz”

Nesta semana, foram divulgadas diferentes versões sobre a eventual retomada de negociações entre Israel e a Autoridade Nacional Palestina (AP). Esta,  presidida por Mahmoud Abbas, anunciou rejeitar a proposta apresentada pelo secretário de Estado norte-americano John Kerry. Este, por seu turno, garante que tais conversações serão retomadas e que os representantes de Israel e da Palestina concordaram em se encontrar em Washington na próxima semana para acertar os detalhes tendo em vista o reinício das negociações.

Por Moara Crivelente | No Portal Vermelho

Após intensas reuniões com israelenses e palestinos, dois pontos resultaram fulcrais para as negociações: de um lado, o reconhecimento de Israel como um Estado judeu, e de outro, o reconhecimento das fronteiras de 1967 para a Palestina.

Em junho, o chefe da equipe negociadora da AP, Saeb Erekat, lembrou que o recuo de Israel para além das fronteiras de 1967 (devolvendo territórios palestinos ocupados a partir da Guerra dos Seis Dias, naquele ano), a libertação de prisioneiros e o congelamento das construções de colônias judias “não são condições palestinas, e sim obrigações israelenses”.

Israel ainda assim insiste em afirmar que não aceitará “precondições”, mas foram esses os mencionados pelos membros do Comitê Executivo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), na quinta-feira (18), como pontos de partida, sem os quais não haverá retomada do processo de paz. Além disso, informações de que os israelenses propunham adiar as negociações sobre Jerusalém (reivindicada como sua capital pelos dois lados) e postergar por cinco anos a questão do retorno dos refugiados palestinos também foram mencionadas como motivos para a recusa da AP.

Apesar das suas amistosas reuniões com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e com o presidente Shimon Peres, Kerry não conseguiu convencer o governo israelense a adotar posição flexível.

Como lembrou Erekat, os pontos que mencionou não são “precondições palestinas”, uma vez que foram ressaltados diversas vezes por resoluções da ONU, por países, individualmente, e até mesmo pelos Estados Unidos, no caso do congelamento da construção de colônias, em um tempo em que se atreveram a elevar em um ponto o tom do que não deixou de ser retórica.

Quando Kerry viajou à Palestina e a Israel para anunciar o seu compromisso com um plano de paz, no começo do ano, os palestinos já tinham demonstrado a sua disposição, apesar do ceticismo (automaticamente herdado de uma longa história de frustrações com os acordos de paz “made in USA”, feitos nos EUA, dos quais sempre saíram prejudicados), e o governo israelense, a sua falta de compromisso perpétua.

Depois do evento, cujo desenvolvimento se arrastou por mais tempo do que o prometido por Kerry, o status quo foi mantido, como vem sendo desde o estabelecimento oficial do Estado de Israel, em 1948, conduzido pela ONU, que não fez o mesmo pela Palestina.

Mesmo neste processo, se reproduziram novos anúncios sobre a construção de colônias israelenses, que não são barracas ou estruturas improvisadas no meio de qualquer lugar, e sim bairros residenciais bem sólidos (às vezes apresentados como grandes empreendimentos imobiliários), com o serviço de transporte, saneamento e eletricidade negados aos palestinos que vivem em territórios administrados por Israel, ainda que dentro da própria Palestina.

Além disso, os debates dentro do próprio governo israelense sobre a definição de uma postura oficial para o processo de paz são reproduzidos pela mídia sem cortes. Os palestinos leem, escutam e assistem àqueles que definem a postura israelense nas negociações, como a vitória por número e pressão dos que defendem a manutenção das colônias (e a sua extensão) e os planos políticos que relegam os palestinos à cidadania de segunda classe em Israel, esse Estado que exige ser reconhecido como judeu.

Neste sentido, o reverberado otimismo com a possibilidade de retomada de um processo de paz (congelado desde 2010, embora nunca verdadeiramente eficiente), parece ter atingido apenas as expectativas ocidentais sobre o assunto. Os palestinos sempre perceberam a postura do governo israelense (ainda mais dominado pelos grupos representantes dos colonos), ou seja, a de um descompromisso total com a paz, principalmente pelas declarações frequentes em tom sionista sobre a ocupação da Palestina, ou a “Terra de Israel”, para os políticos que investem (e são muitos) em tom mais profético.

Igualmente, sabe-se que as gestões da diplomacia estadunidense têm um limite na sua indeclinável posição no apoio irrestrito aos sionistas israelenses e da utilização que fazem do regime de Tel Aviv como instrumento de sua estratégia de dominação no Oriente Médio.

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