Lula: “Introduzimos o combate à fome na política internacional”

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez a sessão de encerramento da Conferência Nacional “2003-2013: Uma Nova Política Externa”, organizada pelo Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais e pela Universidade Federal do ABC, nesta quinta-feira (18). A proposta da conferência foi o balanço dos 10 anos e os desafios da consolidação de uma política externa soberana mais voltada para a América Latina e a África, sem “complexo de vira-lata”.

Por Moara Crivelente, de São Bernardo | Portal Vermelho

Lula fala do combate à fome e à miséria e da política externa soberana do Brasil na Conferência Nacional "2003-2013: Uma Nova Política Externa".O ex-presidente trouxe à sessão uma série de documentos que relatavam as suas promessas de campanha, iniciando com a declaração de que “uma das nossas propostas em 2002 era fazer com que a Alca [Área de Livre-Comércio das Américas] não acontecesse nesse continente”.

Lula falou de temas diversos, inclusive sobre o ex-agente da Agência Central de Inteligência dos EUA, Edward Snowden, classificando as suas denúncias sobre o programa de espionagem norte-americano como “um grande serviço à humanidade” e à autodeterminação.

Além disso, mencionou o maior empenho nas relações com o Oriente Médio e a atuação do país na mediação de situações de crise política, mas ressaltou o grande défice internacional em governança, representatividade e eficácia das organizações multilaterais, das quais a ONU, por excelência, “não cumpre o seu papel” de promover a paz.

Lula considerou ter tido “sorte” por ter como ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, que caracterizou como uma pessoa “simples e humilde”, com quem encontrou afinidades rapidamente.

Sobre os Estados Unidos e a União Europeia, Lula disse que um “se comporta como o xerife do mundo”, e o outro, “como delegado, e entramos como coadjuvantes”. “A verdade é essa, nós não eramos levados a sério, porque não nos respeitávamos. Fomos governados por uma parte da elite do país que tinha complexo de vira-lata”.

Combate à fome

A política externa centrada na superação da fome e da miséria foi o ponto central da fala de Lula, que lembrou do discurso que fez na ONU, em setembro de 2003, ressaltando a questão em âmbito internacional.

Lula foi o primeiro presidente da República que pôde ir ao Fórum Social Mundial (FSM), mas depois, conta, “também fui para Davos falar exatamente o mesmo que disse no FSM, que era possível acabarmos com a miséria no mundo, no Brasil, e sobre tudo acabar com a fome”.

E voltando de Davos, conta: “eu disse, Celso, acho que temos que fazer um esforço importante para mudarmos a geografia política e econômica no mundo”.

“Na primeira reunião do G8 [países mais industrializados do mundo] em que eu participei, eu ficava falando da fome, perguntando quando é que vamos falar da fome? Eu enchi tanto o saco deles que eles até anteciparam o almoço,” disse, em tom descontraído.

E afirmou: “o problema não é a falta de alimento, e sim que as pessoas não têm renda para comprá-lo. Por isso eu disse, é preciso colocar o pobre no orçamento da União”, e não se trata de uma medida paliativa.

Políticas de diálogo

No encontro com o ex-presidente George W. Bush, logo após a sua própria eleição e nas preparações estadunidenses para a invasão do Iraque, Lula disse ter afirmado ao norte-americano que “o Brasil não tem nada contra o Iraque, não quero guerrear contra o Iraque, a minha guerra no Brasil é contra a fome e é essa a guerra que eu quero vencer no meu mandato. Portanto, o senhor faça a sua guerra que eu faço a minha”.

Por isso, Lula ressaltou a falácia sobre a existência de armas químicas no país, afirmando que “foi uma das grandes mentiras contadas no começo do século 21, espero que outra desse tamanho não se repita porque o mundo não pode continuar achando soluções sempre na base da guerra, e sempre a guerra contra os mais fracos”.

Lula também mencionou seu encontro com Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, quando lhe fez perguntas sobre as acusações de que o presidente persa era sujeito, como o desenvolvimento do seu programa nuclear. O ex-presidente conta que havia recebido uma carta do presidente estadunidense Barack Obama, por exemplo, em 2010, com os princípios aceitáveis pelos EUA para um acordo com o Irã.

Depois dos diálogos e negociações mantidas com Ahmadinejad, o resultado foi um compromisso idêntico aos requisitos dos EUA, disse Lula, mas ainda assim, o acordo não foi aceito. “Eles não queriam um novo ator global, achavam que o Brasil tinha que continuar no mundinho dele”.

No âmbito regional, Lula também ressalta a sua atuação pela criação do grupo “Amigos da Venezuela”, ainda em 2003, para apoiar o então presidente Hugo Chávez contra a crise política e o golpe secundado pelos EUA, para a “consolidação do processo democrático”, ou seja, a manutenção de Chávez no governo.

Lula enfatizou a importância do respeito próprio e da soberania do país nas relações internacionais, e disse: “Ninguém respeita lambe-botas. Na reunião [do G8, países mais industrializados do mundo], quando o Bush chegou todo mundo levantou. Pensei: poxa, ninguém levantou para mim! Então falei: Celso, nós não vamos levantar. Parece bobagem, mas a política também é feita de gestos”.

“Foi esse o primeiro momento da nossa política externa, que definiu que fôssemos nos assenhorando de um espaço que não tínhamos”, completou.

Política regional

“A nossa decisão também foi olhar para a nossa querida América do Sul, e dela olhar para a América Latina”, afirmou. “Aquilo que as pessoas jamais imaginaram que podia acontecer nós fizemos, nesse período que foi mais progressista, socialista e de esquerda da nossa querida América Latina”, disse Lula, listando os sucessivos e atuais governos progressistas na região.

“Nunca tivemos tanto crescimento, tanta distribuição de renda e tanta inclusão social na América do Sul”, afirmou Lula, com a ressalva “temos alguns pequenos problemas entre os países e por isso temos dificuldades em criarmos instituições multilaterais para julgar nossos problemas, mas temos competência para isso”.

“Quando fizemos a reunião América Latina e Caribe, foi a primeira vez que conseguimos, em 500 anos, reunir todos os países da região sem a presença dos EUA. E vocês sabem quanta crítica recebemos, ‘política terceiro-mundista’ e além, mas sabemos, se resolvermos os nossos problemas, o ator político extraordinário que seremos”, ressaltou Lula.

Depois de todo esse processo, diz Lula, “vocês percebem que os setores conservadores não se conformam, eles sentem saudade do tempo em que éramos subalternos, já tinham se conformado com a miséria ser um dado social”.

Relações com a África

O Brasil estava de costas para a América Latina, olhando para a Europa sem ver a África, disse Lula. “Por isso, abrimos 19 embaixadas na África, e o comércio aumentou bilhões de dólares. Em Angola, disse que os empresários brasileiros deveriam investir na África”.

Na África há uma expectativa muito grande com relação ao Brasil, afirmou o ex-presidente. O país pode dar mais cooperação, mas “o nosso dinheiro para esse setor é muito pequeno, quase nada”, de acordo com Lula, e a burocracia politizada é paralisante.

“Finalmente a nossa presidenta teve uma medida extraordinária de criar uma diretoria no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a África. A nossa deficiência foi de tamanha magnitude que só emprestávamos para quem não precisa”, afirmou.

Lula disse sentir-se preocupado com as expectativas e com a responsabilidade do Brasil com relação à África, e falou das atividades que ainda realiza no continente, através de uma parceria entre o Instituto Lula, a Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) e a União Africana (UA).

Presença internacional

Para o Brasil ter a representatividade que tem hoje, disse Lula, precisa agir diferentemente dos outros. “Agora que estamos na Organização Mundial do Comércio (OMC), precisamos fazer um esforço enorme para retomarmos a rodada de Doha, por um comércio mais livre para os mais pobres”.

O Lula também ressaltou o empenho pela mudança nas instituições multilaterais e pela governança global. “Sem instituições mais fortes, o mundo terá problemas para manter a paz, e um equilíbrio econômico social. Não é aceitável que os pobres se conformem que continuarão sendo pobres e os ricos, ricos”.

“Os países ricos já gastaram 9,5 trilhões de dólares para tentar resolver a crise, mas não conseguiu. Segundo o economista Joseph Stiglitz, os EUA já gastaram 3 trilhões na Guerra do Iraque, que ainda não acabou. Imaginem se esses recursos fossem aplicados pra acabar com a miséria”, disse Lula.

Além disso, o ex-presidente ressaltou que depois de oito anos de governo seu, e de dois anos com a presidenta Dilma Roussef, “continuamos brigando pela reforma da ONU e do Conselho de Segurança”, que há muito não representa a geopolítica mundial.

Ainda assim, Lula disse que avançamos muito pouco na governança mundial. “Os cinco que mandavam continuam mandando, invadem quem querem invadir. Na Síria não invadiram porque a Rússia e a China não deixaram, mas olha o que aconteceu na Líbia”.

Sobre a crise europeia, Lula ressaltou os ditames da chanceler alemã Angela Merkel na União Europeia. “Essas pessoas não foram preparadas para enfrentar crises. São os filhos do Plano Marshal”, acostumados que estavam com o Estado de bem-estar social.

Lula concluiu a sua fala com informações sobre a sua saúde (garantindo não ter voltado a ter câncer, ao contrário do que alguns meios de comunicação afirmaram, mas continuar acompanhando a saúde), depois ouviu estudantes que reivindicavam o seu apoio para a construção de uma residência estudantil na UFABC, e deu declarações aos jornalistas sobre o Governo Dilma, externando a sua confiança na presidenta e na sua reeleição.

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