Economista belga analisa crise e trabalho na Europa

Henri Houben, economista e membro da direção nacional do Partido do Trabalho da Bélgica, conduz uma mesa-redonda na sede do Comitê Central do PCdoB, nesta quarta-feira (29), sobre a atual crise do capitalismo e seus desdobramentos. Houben especializou-se no setor automobilístico e esteve no Brasil em 1999, quando visitou montadoras em São Bernardo e outras regiões. O Portal Vermelho conversou com ele sobre seu trabalho no contexto de crise na Europa.

Por Moara Crivelente | No Portal Vermelho 

Economista belga no PCdoB

O economista fez um balanço sobre o papel e o funcionamento da União Europeia (UE) e da institucionalização de uma moeda única, o euro, em 17 dos 27 membros da organização. Houben mencionou os critérios exigidos a esses países para a entrada na zona do euro com relação ao gasto e ao financiamento público, o que reflete diretamente nas medidas de austeridade verificadas desde o intensificar da crise europeia, em 2008.

A UE, de acordo com o economista, funciona praticamente como um Estado único, o que uniformiza as políticas de austeridade ditadas pelo membro predominante, Alemanha, com a anuência das instituições encarregadas, como a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu, que junto com o Fundo Monetário Internacional, conformam a “troika”, combatida por movimentos e partidos de esquerda nos países mais afetados, como Portugal, Espanha, Grécia e outros.

Em um foco mais abrangente, o economista analisa as políticas europeias durante a crise e a situação do emprego e da sindicalização, sobretudo no setor automobilístico. Houben defendeu a sua tese de doutorado em 1995, focando na situação do trabalho e da sindicalização no setor automobilístico. Neste sentido, ressalta a Bélgica e a França com uma forte cultura de sindicalização, e países da Escandinávia (Dinamarca, Suécia e Noruega), por exemplo, com menor nível de sindicalização.

Com relação à indústria automobilística, a política europeia, sob a hegemonia alemã (menos afetada pela crise no setor), é insuficiente para outros países. Na Europa atualmente há seis grandes companhias integradas; “a Alemanha, com a Wolkswagen, não enfrenta os problemas que todas as outras enfrentam”, ou seja, a Ford Europa, General Motors Europa, Fiat, Renault, Pegeot.

Por isso, a Alemanha não faz muito para proteger a indústria automobilística. Todas as outras cinco empresas fecharam plantas de produção. Neste quadro, as políticas europeias (generalizadas) “não têm sentido”, diz o economista.

Atualmente, analisando a crise Europa, Houben verifica um contexto em que o continente alcança níveis recordes de desemprego, e traz a perspectiva ao já conhecido ciclo capitalista das crises: “o governo aplica medidas de austeridade, diminuindo consideravelmente o nível de vida da população, os direitos sociais e a segurança, o que reduz o consumo, a demanda, e consequentemente a produção e a arrecadação, o que é respondido com mais medidas de austeridade e cortes sociais, e assim por diante, basicamente”.

Redução no padrão de vida e moeda única

A situação de austeridade afeta não só os países do Sul da Europa, que têm aspectos mais intensificados da crise, mas também outros como a Bélgica, a Grã Bretanha, e até mesmo a Alemanha. “Todos estão fechando plantas de produção automobilística, e isso afeta diversos setores, pois a indústria envolve várias áreas da produção. Um exemplo é a indústria de pneus e principalmente do aço, que também tem muito menor produção relativa ao setor da construção”, diz Houben.

O economista ressalta tanto o setor automobilístico quanto o da construção como os principais afetados pela crise, já que são diretamente ligados com o padrão de vida, em queda, na Europa. “Quando as pessoas têm que reduzir a sua qualidade de vida, a primeira coisa que deixam de comprar são carros, e também reduzem o seu nível de moradia. Se o seu carro tem oito anos, passa a esperar dois mais para comprar outro.”

É importante ressaltar o efeito em cadeia, sublinha o economista. Se há menos produção automobilística, haverá menos produção de placas de aço, de componentes eletrônicos, de materiais plásticos, e assim por diante. Isso afeta diretamente a produção geral da economia, e consequentemente o nível de empregos.

O começo foi confuso, diz o economista: “Primeiro, disseram que não havia crise; depois, no começo de 2008, quando a crise começou a esquentar nos EUA, disseram que era só lá, e que não nos afetaria, pois a nossa economia é forte. Então, a crise atingiu a Europa, e os mesmos disseram que não seria tão má, pois temos o euro, que protegerá a nossa economia”.

“De fato, em 1993, não existia uma moeda única, e tivemos problemas de ajuste financeiro, alguns países tiveram que se ajustar”, diz Houben. Com o euro, os 17 membros da zona de moeda comum não tiveram que se ajustar; porém, o problema da moeda se divide em dois, segundo ele: “o primeiro é diretamente relacionado a ela, pois normalmente há um déficit externo que precisará ser corrigido, de acordo com as políticas da região. Se o país tivesse uma moeda diferente, poderia adaptá-la, mas com uma moeda única, ele perde essa autonomia, e não pode equilibrar a economia através das exportações e importações, por exemplo”.

O outro problema, para Houben, é um efeito direto no financiamento público do país, ligado também ao déficit da balança comercial europeia (produzindo menos do que consume). De acordo com a Comissão Europeia, “se o seu governo tem mais de 3% do PIB em déficit, então ele tem que ser ajustado rapidamente, para corresponder aos critérios para entrar no sistema monetário comum”.

Hoje, os critérios são ainda mais exigentes, pois a meta é a de que o déficit estrutural do governo seja de 0,5% do PIB. Para o economista, “se o seu governo tem déficit externo, porque consume mais do que produz, então a atividade é baixa, o que afeta também a renda do Estado, que será menor”.

Se a crise se aproxima, a renda fiscal acaba por se reduzir, o que contribui para a situação de crise, e toda a União Europeia reage. “Por isso, o problema [para as instituições financeiras] é a dívida pública, o que é uma má análise. Dizem isso porque na realidade não estão analisando a crise em si, e sim defendendo os interesses das grandes multinacionais, do capital, e por isso exigem, através do plano de austeridade, o ‘ajustamento’ das economias europeias”.

Neste sentido, a análise é enquadrada por Houben numa espiral descendente já conhecida: “se o seu governo reduz os salários e os benefícios sociais através das medidas de austeridade, com menor renda, as pessoas reduzem o consumo, o que afeta negativamente o nível de produção do país. A atividade econômica é reduzida, e por isso há menos renda fiscal; assim, as finanças públicas também são reduzidas, o que produz um novo plano de austeridade”.

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