Oriente Médio: EUA manipulam tensões com comércio de armas

As últimas vendas de armas dos EUA a Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (cerca de 10 bilhões de dólares) foram abordadas por alguns meios como um ponto de virada nas políticas de exportação de Washington para o Oriente Médio. Entretanto, uma análise dos pacotes feita pelo portal Al-Monitor revela que eles não representam tanto uma mudança da política estadunidense para a região quanto um resultado de políticas tradicionais do imperialismo.

Por Moara CrivelentePublicado no Portal Vermelho

 

Comércio militar EUA


Caças F-16 da Força Aérea Israelense. Foto: Reuters / Amir Cohen


No caso de Israel, as vendas foram apenas uma peça do quebra-cabeças na reafirmação da “cooperação bilateral em defesa”. Durante a sua visita, em abril, a Israel, “o secretário de Defesa norte-americano Chuck Hegel também confirmou um aumento de 2,4 bilhões para 3,1 bilhões de dólares em apoio financeiro-militar a Israel. Historicamente, este nível de financiamento militar dos EUA é incomparável”, de acordo com o analista que escreve para o portal Al-Monitor, Jean-Loup Samaan.

Da mesma forma, Hagel prometeu que para o próximo ano fiscal, os EUA investirão 220 milhões de dólares nos sistemas de defesa antimíssil israelense (complementando os 460 milhões já investidos). Em outras palavras, a última compra só confirma o fortalecimento constante das relações militares EUA-Israel.

“No Golfo, também, as vendas podem ser consideradas prolongamentos das escolhas prévias dos EUA para a exportação de armas aos reinos do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG)”, de acordo com Samaan . Em particular, a aquisição de caças de combate F-16 pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), no valor de 5 bilhões de dólares, seguem os comércios anteriores, em 2011, de 84 caças F-15 à Arábia Saudita (num acordo recorde de 29,4 bilhões de dólares).

A nível militar, essas vendas dão à Arábia Saudita e aos EAU uma vantagem qualitativa em poder aéreo em relação ao Irã, mas em alguns aspectos, só reforça a sua superioridade aérea pré-existente. Esta lacuna já tinha sido sublinhada em 2009 por David Petraeus, então o chefe do Comando Central estadunidense, quando ele afirmou que a Força Aérea dos EAU poderia “fazer frente à contraparte iraniana sozinha”, sem a necessidade de aliados. A perspectiva de Samaan reproduz o discurso bélico estadunidense, justificando uma escalada do comércio militar na região para “fazer frente à ameaça”, inventada e expandida pelo Ocidente, que o Irã alegadamente representa.

“A real novidade dessas vendas não foi nem a escala, nem o conteúdo, mas uma forte mensagem política do Pentágono”, segundo o analista. Quando analisando os jornais sobre a viagem de Hagel a Tel-Aviv, Abu Dhabi e Riyadh, “quase parecia que as vendas tinham sido negociadas através de um quadro comum, uma forma de política de exportação de armas abrangente de Washington para a região”, diz Samaan.

A impressão não foi enganosa, de acordo com o analista, “já que os oficiais do Pentágono deram repetidamente notas à imprensa para alinhar a sua narrativa”, enfatizando que “esta viagem está sublinhando a relação securitária dos EUA com Israel e também com os seus parceiros do Golfo”, ressaltou.

Jogo político-militar do imperialismo

Termos e números importam aqui; eles põem de lado o próprio fato de que esses contratos foram discutidos de forma bilateral, separadamente, com Israel, os EAU e a Arábia Saudita. Na verdade, diz Samaan, “essa estratégia de relações públicas é mais do que comunicação. Revela que a ambição do Pentágono é regionalizar a sua política de exportação. O Departamento de Defesa usou os acordos para dar textura à estratégia (que tem emergido desde a retirada das forças armadas estadunidenses do Iraque, em dezembro de 2011) para o Oriente Médio”.

Para o analista, “esta estratégia regional é construída sobre dois objetivos explícitos: pressionar o Irã a deixar o seu programa nuclear e reafirmar a presença dos EUA aos aliados regionais nesta área crucial da Ásia. A jogada arriscada aqui é dar forma a uma aliança de conveniência com os países do Golfo e com Israel”. O raciocínio é motivado pelo fato de que todos esses parceiros dos EUA compartilham uma suposta “preocupação” comum, nomeadamente o Irã, seja por causa do seu programa nuclear, ou pelo seu apoio ao presidente da Síria, Bashar Al-Assad. Neste cenário, a importância da última venda de armas tem menos a ver com requisitos operacionais e mais a ver com a política declarada de intimidação.

Esta estratégia também tem como objetivo manter a influência dos EUA, com o papel infinito de suposta “hegemonia equilibradora” (leia-se, imperialista e manipuladora) na região. Isso significa optar por políticas supostamente indiretas e evitar intervenção direta (ou seja, uma invasão militar, já que apenas isso seria mais direto do que as políticas atuais), e assim controlar as disputas locais.

Em alguns aspectos, essa tática se relaciona com conceitos de “liderar desde trás”, que alguns analistas dizem ter ilustrado a decisão estadunidense de não liderar a intervenção na Líbia, mas sim prover aos seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) um apoio militar crucial para fazê-la. A soma final, entretanto, deixa clara a influência direta do imperialismo estadunidense sobre essa intervenção. Além disso, em 2011, também houve notícias do envio de drones Predadores (“Predator”, em inglês), que fizeram manchetes para ilustrar o “maior envolvimento” dos EUA na questão.


Senador republicano John McCain visita a Líbia em 2011 e encontra-se com os seus “heróis”, rebeldes que apoiaram a intervenção da Otan. Não falou com os opositores da intervenção.Foto:  Foto: Reuters / AFP


Por outro lado, segundo Samaan, a estratégia atual no comércio de armas pode enfrentar dificuldades importantes. “No caso do Irã, a efetividade da mensagem de Washington é duvidosa”, diz o analista, que esquece de incluir no seu raciocínio a disposição permanente e reiterada diversas vezes pelo Irã ao diálogo, postura que demonstra o seu compromisso com a paz regional assim como a exigência de respeito pela sua soberania, embora não devesse ser obrigado a praticar a abertura e a defesa do seu direito de desenvolver um programa nuclear pacífico justamente às nações que não ratificaram o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e que têm arsenais preocupantes, como os EUA e Israel.

É compreensível o desenvolvimento do raciocínio do escritor, uma vez que cita como fontes apenas o secretário de Defesa dos EUA e o ex-chefe da Inteligência militar israelense, Amos Yadlin, que teria dito em abril, em tom de ameaça, que “os iranianos cruzaram a linha definida pelo [primeiro-ministro israelense Benjamin] Netanyahu”. Netanyahu foi excluído dos diálogos frequentes mantidos entre o Irã e o Grupo 5+1 (membros do Conselho de Segurança mais a Alemanha), desde novembro passado, sobre o programa nuclear uraniano.

De volta à venda de armas, os clientes dos EUA não tiveram, ainda, todo o seu pedido atendido, afirma Samaan. Militarmente falando, cada um dos três países havia pedido mais, como no caso de Israel, que pediu o sistema “Artilharia Massiva Perfuradora” (“Massive Ordnance Penetrator”, em inglês, uma bomba com capacidade para destruir abrigos, ou “bunkers”), que poderia aumentar o poderio israelense para ataques, ou melhor, agressões contra o centro de pesquisa nuclear Fordo, do Irã.

A Casa Branca pode ter evitado cumprir o pedido, de acordo com o analista de Al-Monitor, por temer que tal “acordo comercial” fosse longe demais na política de intimidação. Da mesma forma, os EAU e a Arábia Saudita supostamente pediram mísseis conjuntos AGM-158 Ar-Terra. “A administração Obama também teria evitado a transferência dessas armas, embora tenha aberto a porta para a venda de mísseis AGM-88, menos sofisticados” diz Samaan, o que esclarece o macabro jogo militar dos EUA na região. O analista diz que “a decisão pode ter sido menos motivada pela questão do Irã e mais pela ameaça a Israel: as medidas de apoio aos países do CCG ainda dependem da garantia de que eles não desafiarão a vantagem militar qualitativa israelense” na região, o que forma um “pilar histórico para as políticas de exportação” bélica para o Oriente Médio.

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