Esquerda palestina critica EUA e expõe demandas para negociações

Os representantes do Comitê Democrático da Palestina no Brasil, Nader Baja e Jadallah Safa deram entrevista ao Portal Vermelho sobre o desenrolar político em Israel e sobre a visita do presidente dos EUA, Barack Obama, à região, com a possibilidade de retomada das negociações com os palestinos. No contexto da visita do presidente estadunidense Barack Obama a Israel e à Palestina, e também após a configuração de um novo governo em Israel, o Portal Vermelho conversou com Baja sobre as perspectivas para um processo de paz e sobre as reivindicações dos movimentos de esquerda na Palestina.

Por Moara Crivelente | No Portal Vermelho 

Obama e Netanyahu 


Barack Obama e primeiro-ministro Benjamin Netanyahu em visita do presidente estadunidense a Israel. Foto: The New York Times


Conforme abordado pelo Vermelho enquanto transcorria a visita de Obama, diversos partidos e frentes de esquerda opuseram-se contundentemente à retomada dos diálogos com o governo de Israel, governado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, reeleito em janeiro.

Netanyahu teve grandes dificuldades em formar uma coalizão que lhe permita governar, uma vez que o seu partido direitista e sionista Likud, coligado desde o princípio com o ultra-direitista Yisrael Beitenu, conseguiu apenas 20 dos 120 assentos no parlamento (Knesset). De última hora, conseguiu convencer partidos importantes numérica e politicamente a juntar-se ao seu governo.

Entretanto, as intensas negociações que Netanyahu manteve para formar uma coalizão não resultaram no caso dos partidos chamados de “esquerda”: o Trabalhista e o Meretz. Ambos recusaram-se a juntar-se ao governo, criticaram a crescente desigualdade social entre os israelenses e o oneroso financiamento estatal aos assentamentos em terras palestinas, aos quais disseram ser contrários.

Como oposição, ambos afirmaram que o debate deverá abordar até mesmo questões fundamentais para os judeus israelenses, como o próprio sionismo, segundo suas líderes Shelly Yachimovich (Trabalhista) e Zahava Gal-On (Meretz). Zahava chegou a dizer no dia 18, quando o novo governo foi anunciado, que “os grandes vencedores são os colonos, que tomaram os processos decisórios econômicos e habitacionais”, em referência ao partido sionista Yesh Atid (com o líder Yair Lapid como ministro das Finanças), por exemplo.

No caso dos palestinos céticos quanto ao “processo de paz”, a oposição às negociações parte da resistência à pressão dos EUA, que se mostraram mais uma vez um aliado incondicional do regime sionista de Israel. Além disso, também tem como fundamento a falta de compromisso do governo israelense com acordos passados, que nunca foram cumpridos, para não mencionar as resoluções da ONU, desde 1948 (quando o Estado de Israel foi estabelecido às custas da expulsão de milhares de palestinos), nunca acatadas.

Segundo Baja, a falta de condenação por parte dos EUA às ações criminosas do regime israelense comprova mais uma vez a “aliança eterna” (como afirmado pelo próprio presidente Obama) com Israel, cuja “segurança” é sempre posta como prioridade para os estadunidenses, mesmo que isso custe aos palestinos os seus direitos humanos mais básicos.

Portal Vermelho: Podemos começar falando da visita do Comitê ao PCdoB, neste 91º aniversário do partido?
Nader Baja: Bem, viemos dar os parabéns ao partido pelos 91 anos, desejar que continue adiante, com mais lutas e coisas boas para a sociedade como um dos principais partidos da esquerda brasileira. Acho que é um elemento importante para a vida pública brasileira, então, parabéns por essa história brilhante do partido.

O Portal esteve acompanhando também a visita do presidente dos EUA Barack Obama a Israel e à Palestina; pode nos dizer o que o Comitê pensa que ela significou para eventuais negociações de paz?
Essa visita para nós não representou nada de significante em relação a mudanças no ambiente de busca de soluções para o conflito palestino-israelense. Ao contrário, a nossa análise é que o presidente norte-americano foi para ratificar o seu apoio a Israel. E esse apoio manifesta-se também no campo diplomático; por exemplo, em 2011 impediram a entrada da Palestina [na ONU] e agora em 2012 também votaram contra, na Assembleia Geral.

No campo econômico, sabemos que dão ajuda anual a Israel de 3 bilhões de dólares, o que entendo que é o valor declarado, que é o que a imprensa divulga. Acho que ninguém tem acesso aos números exatos. E em terceiro lugar, no campo militar o governo americano ajuda no campo da inteligência, no campo do armamento em si. Por exemplo, estão construindo o avião F-35, que custa 250 milhões de dólares e que nem a Força Aérea dos EUA tem, e Israel vai ter, em 2017. Foi um contrato entre o ministro [israelense] de Defesa Ehud Barak e o ministro de Defesa americano.

Obama, durante a sua visita, não procurou de modo algum condenar a política israelense, especialmente a política de confisco de terras, de constante construção de assentamentos nas terras palestinas. Nos últimos 20 anos, construíram 250 assentamentos, o número de colonos [judeus em terras palestinas] aumentou de 250 para 550 mil. E foi esse o preço alto que os palestinos estão pagando, despejados das suas terras, obrigados a sair do país ou serem trabalhadores de mão-de-obra barata na economia israelense. Isso de fato está destruindo a economia palestina

Isso também vai inviabilizar a chamada solução de dois Estados, porque não há terras para um Estado palestino. É só ver os dados e os efeitos da política israelense e você vai concluir que não há como. Israel agora é um Estado de apartheid. Basta fazer uma visita e pode-se ver que o palestino nem utiliza a mesma rua que um israelense.

Sobre os recursos naturais que o israelense tem, por exemplo: segundo dados do Banco Mundial de quatro anos atrás, um palestino consume apenas 1/3 do consumo normal anual de um israelense. O sistema de esgoto dos assentamentos israelense, por exemplo direciona o esgoto para ser despejado em terra palestina. Temos até documentários sobre isso.

O senhor Obama não trouxe qualquer iniciativa efetiva para as negociações. Entendemos que as negociações não resultaram em nada; durante 20 anos as negociações correram entre a Autoridade Palestina e os vários governos israelenses no poder. Por tanto, a solução não passa por esse meio, até porque não dá para confiar na intervenção norte-americana.

Sabemos que há uma aliança estratégica, o governo norte-americano de modo algum vai ficar contra Israel, isto é o “normal das coisas”, não é?

O mínimo que o nosso povo quer é o estabelecimento de uma Conferência Internacional de Paz, sob o auspício da ONU, em que todas as resoluções pertinentes à questão palestina, em especial a resolução 194 [de 1948] que autoriza o retorno dos palestinos às suas terras, reconhece o direito a autodeterminação e a um Estado palestino soberano, viável, com Jerusalém como capital.

E o mais importante, com um país como garantidor, porque os governos israelenses, historicamente, não cumprem os acordos. Até os Acordos de Oslo, que são injustos, eles não cumpriram. Apesar de que, ao analisar os acordos, pode-se ver que de fato eles ganharam muito; foi um estratégico grave da liderança palestina, especialmente da AP, aceitar essas negociações. Elas não vão levar ao reconhecimento de um Estado palestino.

Foi então que a Autoridade Palestina também reconheceu o Estado de Israel, certo?
Sim, e se [contentou com] a autonomia. E “autonomia” não é um Estado; para se ter um Estado, é preciso três elementos: povo, governo e terra. Temos governo, podemos concordar com ele ou não, temos nosso povo, mas não temos a terra. Logo, não temos um estado.

Se você perguntar para os políticos israelenses se querem um Estado palestino, se perguntar para o primeiro-ministro israelense, ele vai dizer que sim, quer, mas nunca diz quando, ou onde.

O governo israelense costuma colocar um conjunto de exigências aos palestinos e não cumpre com qualquer uma feita em resposta. Como vocês lidam com isso nas negociações?
Sim, agora o governo quer que reconheçamos o caráter judaico do Estado de Israel. Mas os palestinos não podem concordar com isso, porque temos 1,25 milhão de palestinos que vivem dentro de Israel, certo? Então, isso é um convite para o suicídio, significa que podem, no futuro, dizer: “olha, vocês agora têm um Estado e podem sair daqui”.

Inclusive, essa foi uma proposta direta feita pelo Avigdor Lieberman, ex-ministro de Relações Exteriores, certo? 
Sim, exato, e de fato alegam que são um Estado judaico e democrático. Como isso pode ser? Você não pode ser um Brasil democrático e católico. É democrático, ponto. Eu sou palestino muçulmano, respeito meus irmãos católicos, não importa quem sejam, o país é para todos. Penso que o Estado deve ser para todos, laico, democrático, para todos. Não pode ser só para alguns.

Então, o que Israel fará, com esse governo que surge agora, é um governo de ultra-direita, que fez aparecerem duas estrelas, não é? Um chama Yair Lapid [do partido nacionalista-ortodoxo Yesh Atid] e o outro Naftali [Bennett, do ultranacionalista partido Lar Judeu]. Um de centro, outro de direita. Os dois, na plataforma política da campanha, em nenhum momento mencionaram o conflito palestino-israelense. Isso demonstra que eles não dão importância para a busca por uma solução.

E nesse caso, o que o senhor acha que significará o fato de ser a primeira vez em quase 30 anos que o governo não terá uma força política ultra-ortodoxa em sua base, com a exclusão deliberada do Shas e do “Judaísmo Unido da Torá” [United Torah Judaism], que ficaram de fora da coalizão? Ambos até ameaçaram votar a favor de uma retomada das negociações de paz e contra o financiamento para os assentamentos, mas eles sempre fizeram parte dos governos anteriores e das pastas mais ligadas a esses assuntos, como o próprio Ministério da Habitação, por exemplo. O senhor acha que isso é só uma declaração retórica apenas para fazer oposição porque foram excluídos?
Então, o histórico dos dois partidos nunca foi a favor da paz. Nunca apresentaram qualquer proposta nesse sentido e sim, os dois têm histórico de apoiar os assentamentos em territórios palestinos. O rabino, “pai espiritual do Shas”, Ovadia Yosef, tem declarações racistas. Por exemplo, na cidade de Safat, ele pediu aos donos dos prédios não alugarem para árabes. Em outra ocasião chamou a religião islâmica de nojenta, para não usar outra palavra mais suja.

Depois, disse que era preciso matar crianças palestinas. Esse, em especial, é um dos grandes rabinos em Israel. Ele tem essas declarações de cunho racista e ninguém fala nada. É a mesma coisa que um bispo em São Paulo falar coisas contra os árabes e ninguém se pronuncia.

E por que acha que a mídia israelense, mais especificamente o jornal Ha’aretz, deu esse foco ao Shas no artigo em que analisou a declaração de “um oficial”, não citaram nomes, relativa à retomada das negociações? Considerando que o histórico deles é exatamente o contrário, por que acha que há essa “especulação” sobre a sua oposição ao governo significar algo positivo para as negociações de paz?
Eu acho que é uma tentativa de mostrar que há uma ala da política israelense que está preocupada com o processo de paz, que há um jogo democrático. Mas todos os partidos israelenses, historicamente, nos últimos 65, todos, dentro do sionismo, concordam em pontos [fundamentais]: não reconhecer o Estado da Palestina, não permitir o retorno dos palestinos; Jerusalém é uma cidade eterna e indivisível do povo judeu; [os palestinos] só podem ter um Estado negociando conosco.

Por outro lado, a Autoridade Palestina, cuja linha política eu pessoalmente discordo, mas respeito, mostrou que os últimos 20 anos não resultaram em nada. Será que vamos voltar a esse tipo de negociações que não deram resultado ou poderemos procurar outro? Se este caminho não deu resultado, precisamos procurar outro, melhor, mais útil para o meu povo. Como eu já mencionei, [seria] uma Conferência Internacional que faça todas as resoluções serem cumpridas, e um órgão internacional que obrigue Israel a cumprir o acordo, já que os governos israelenses sempre descumpriram os acordos.

Na época dos Acordos de Oslo [que começaram a ser assinados em 1993], o [então primeiro-ministro israelense Yitzhak] Rabin disse que o que surgiu não foi um Estado palestino; foi um arranjo que, na melhor das hipóteses, leva a uma autonomia administrativa, como está acontecendo. A Autoridade Palestina tem poder sobre a cidade de Ramallah [centro administrativo, na Cisjordânia]. No resto das áreas, quem tem o poder de fato é o exército israelense.

E isso é bastante aparente na Cisjordânia, não só pelos já conhecidos postos de controle, que estão até mesmo dentro de cidades como Hebron, mas também pelos sistemas de segregação visíveis, como as ruas separadas, as redes metálicas por cima dos mercados, nas ruas, para a proteção contra os colonos judeus que vivem nos apartamentos acima e jogam pedras, e até lixo…
Sim, sim, você vê isso, em Hebron até as mulheres e as crianças agridem as mulheres. Tem uma foto em que uma mulher israelense e as crianças dela estão puxando as roupas de uma mulher palestina. É incrível…

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