A intransigência tendenciosa contra o Irã

No grave e complexo quadro internacional da atualidade, uma das questões que motivam tensões é a atitude quanto ao Irã e, especificamente, ao seu programa nuclear.

Por Moara Crivelente | No Portal Vermelho

Faz já 34 anos que a República Islâmica do Irã e os Estados Unidos da América romperam relações diplomáticas, desde que os persas conduziram a revolução de 1979, conhecida como Revolução Islâmica.

A partir de então, foi iniciada uma enxurrada de políticas de ingerência, que os EUA dirigiram a muitíssimos países na região, em especial ao Irã. As sanções e ameaças passaram a ser a tônica das relações dos EUA para com o país persa.

Em fevereiro de 2013 comemorou-se o 34º aniversário da Revolução Islâmica. No evento, o líder supremo do Irã, aiatolá Seyyed Ali Khamenei, criticou os EUA e especificou as condições do país para um diálogo, em uma reação à recente oferta de diálogos bilaterais.

Entretanto, as sanções impostas seguem ativas e em constante atualização (só a ONU tem 8 resoluções que aplicam sanções contra o Irã, emitidas entre 2006 e 2012, sem contar com as sanções impostas pela União Europeia e Estados individuais, como os EUA), numa busca por maior “eficácia”, ou seja, por realmente enfraquecer o governo e a postura anti-imperialista do presidente Mahmoud Ahmadinejad e subjugá-lo aos mandos ocidentais.

Na “Conferência sobre Segurança” realizada em Munique, na Alemanha, em janeiro último, o tema do programa nuclear iraniano e as sanções foram tratados. O hábito de realizarem-se reuniões entre as potências congregadas em torno da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sobre assuntos diretamente relacionados com países que consideram “ameaças”, continua vigente, ainda que totalmente contrário aos preceitos da Organização das Nações Unidas e de um direito internacional soerguido para manter alguma paz no planeta.

Pior, as declarações aprovadas em tais reuniões, em que os “pares” ou semipares (os Estados subservientes às potências) empolgam-se pelas retóricas imperialistas que ouviram e proferiram durante os encontros, são geralmente inconsequentes e mantêm uma lógica neocolonial, em que essas potências acreditam ter direito a controlar o mundo, sejam quais forem os meios “necessários” para o exercício de seu poder.

As teorias geopolíticas clássicas enquadraram a importância “estratégica” de um poder nuclear em teorias de relações internacionais que se autodenominaram “realistas”, que pressupõem uma busca desenfreada dos Estados por poder de forma egoísta e em que o que for mais capaz tem direito a ganhar o status de potência. As análises estratégicas desenvolvidas para tal, por outro lado, tamparam a possibilidade de diálogos legítimos serem desenvolvidos. Exemplo disso é a recusa das potências imperialistas a escutar a afirmação reiterada, porém incansável, do presidente iraniano sobre a sua intenção pacífica para o programa nuclear iraniano.

O país persa é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), que foi elaborado a partir das preocupações e discussões iniciadas logo após o uso de armas nucleares contra a população civil de Hiroshima e Nagasaki, por parte dos Estados Unidos da América. Irônico é lembrar que, mesmo após esta cruel e irreparável demonstração de força, em que centenas de milhares de civis inocentes morreram, foram os próprios EUA, através do então presidente Dwight Eisenhower, os que fizeram uma proposta denominada “Átomos pela Paz”, em 1953, como se buscasse manter seu monopólio sobre as armas nucleares. A proposta, que se desenvolveu para tornar-se a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), tinha como objetivo proclamado o mesmo que o Irã declarou ter já inúmeras vezes: garantir que a energia nuclear seja usada apenas para fins pacíficos, como a geração de eletricidade e as pesquisas médicas.

Também importa notar que a “crise dos reféns”, quando um grupo de estudantes iranianos tomou a embaixada dos EUA em Teerã (malogradamente retratada no filme hollywoodiano ganhador do Oscar Argo), tem sua origem justamente no ano de 1953, quando agentes da CIA, a mando dos EUA, apoiaram um golpe no Irã, para manter o país sob a sua clientela, através do apoio ao Xá, depois derrubado pela Revolução Islâmica. Os EUA continuaram a manter o seu apoio, permitindo que o Xá se exilasse no país, o que causou a reação dos estudantes.

Neste sentido, não é simples nem recente a postura de imposição e jogo político dos EUA, apoiado pela União Europeia e por seu reduto opressor no Oriente Médio, Israel (que nunca assinou o TNP), com relação aos termos dos “diálogos” propostos ao Irã. Como em outras situações, qualquer posição diferente da pregada pelos países imperialistas, ou que desafie ainda que hipoteticamente a sua hegemonia, é considerada uma ameaça, embora os acusados bradem constantemente, para quem queira ou não ouvir, que não estão declarando guerra, nem ameaçando a existência ou segurança da “América”, pretextos para intervenções dos EUA.

Ainda mantendo algum otimismo e a declarada disposição ao diálogo com a AIEA e o Grupo 5+1 (membros do Conselho de Segurança mais a Alemanha), o governo iraniano mantém também a sua afirmação ao direito de desenvolver um programa nuclear pacífico, e mesmo assim demonstrou-se comprometido com as negociações, ao afirmar a possibilidade de “conceder em alguns pontos” importantes para o G5+1. À sua vez, embora também tenha mencionado possíveis concessões, o grupo mantém sanções e retóricas duras contra o Irã, principalmente através da AIEA. A última polêmica foi a exigência, por parte da agência, de uma visita à base militar de Parchim, ao que o governo iraniano respondeu positivamente, “desde que se demonstre com documentos” a motivação da visita.

O fato de que o Irã afirme a sua soberania e exija explicações, ao invés de abrir as suas portas e os segredos de Estado que os EUA tanto apreciam, é considerado mais um indício de postura belicosa, entretanto. Ao que tudo indica, não há postura conciliatória e disposta ao diálogo que convença o imperialismo sobre as boas intenções dos persas.

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