No Oriente Médio, secretário de Estado dos EUA compra alianças

O secretário de Estado dos EUA John Kerry encontrou-se com o presidente do Egito, Mohamed Mursi, neste domingo (03), no Cairo. A reunião foi uma conclusão à visita de Kerry ao país, com um “apelo por união e reforma,” segundo o jornal britânico The Guardian. Um dia depois de “advertir” os políticos egípcios sobre a necessidade de sobrepor-se às diferenças para reavivar a economia frágil do Egito e manter seu papel de liderança no Oriente Médio, Kerry proferiu uma mensagem similar ao presidente Mursi e ao ministro de Defesa e chefe de Inteligência.

Por Moara Crivelente | No Portal Vermelho

John Kerry e Mohamed Mursi
 

Secretário de Estado dos EUA John Kerry e presidente egípcio Mohamed Mursi. Foto: The Guardian

Durante a reunião de duas horas, Kerry e Mursi falaram da paz no Oriente Médio, sobre a Síria e o Irã, e também da situação dos direitos humanos, políticos e econômicos no Egito, segundo um oficial do Departamento de Estado estadunidense. Entretanto, a menção a estes valores segue sendo feita apenas aos árabes, enquanto os EUA esquecem de concretizá-los em âmbito doméstico (mantendo a prisão de Guantánamo no limbo jurídico, por exemplo) ou com relação a Israel, onde a morte de um prisioneiro palestino em consequência de tortura numa prisão israelense causou manifestações massivas ainda na semana passada.

“Os EUA estão profundamente preocupados com a possibilidade de uma instabilidade contínua no Egito ter consequências abrangentes em uma região já balançada”, lia-se em uma matéria do Guardian sobre a reunião e as “advertências” de Kerry, apesar de faltar análises sobre o papel intervencionista e a parcela de responsabilidade dos Estados Unidos por essa mesma instabilidade, ao apoiar com financiamento e armas partes opostas em vários dos cenários políticos que passam por mudanças importantes.

O jornal fez referência também à importância dada por Kerry ao compromisso, por parte do Egito, com o acordo de paz com Israel, pelo combate “ao tráfico de armas para extremistas na Faixa de Gaza” e com o policiamento da Península do Sinai, o que demonstra a real preocupação dos EUA na região: manter seguro o Estado de Israel e uma influência importante dos Estados Unidos sobre os governos da região.

O artigo do Guardian não mencionou a abertura da passagem de Rafah entre o Egito e a Faixa de Gaza, cuja população de 1,7 milhões de pessoas (que habita cerca de 400km2) está sob condição extrema de necessidades humanitárias desde o bloqueio imposto por Israel, em 2007. O Egito já havia condicionado a abertura às “garantias de segurança” que exigiu do partido de resistência Hamas, no governo de Gaza, apesar da urgência humanitária da população palestina.

Opositores liberais e seculares da Irmandade Muçulmana de Mursi dizem que irão boicotar as próximas eleições, e confrontos violentos entre protestantes e forças de segurança criaram um ambiente de insegurança, “complicando os esforços do Egito para assegurar assistência internacional vital,” segundo The Guardian.

“Apoio” militar e econômico

Em mais uma alusão à busca dos EUA por estabelecer-se política e militarmente na região, meios egípcios noticiaram o encontro de Kerry com o ministro da Defesa do Egito, General Abdel-Fattah el-Sissi, em que se discutiram “meios de apoio e cooperação militar entre os dois países, à luz do aprofundamento das relações entre Egito e EUA.”

El-Sissi teria expressado a sua “aspiração por maior cooperação e pela construção e desenvolvimento de capacidades de combate nas forças armadas egípcias, para sustentar a segurança e a paz na região.”

Em encontros com o ministro de Relações Exteriores e com políticos da oposição, no sábado (2), Kerry afirmou ter chego a um acordo sobre reformas econômicas em troca de um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI), no valor de 4,8 bilhões de dólares. Segundo Kerry, este acordo também “desbloqueia” uma assistência significativa prometida pelo presidente Barack Obama em 2012.

O secretário de Estado anunciou a “liberação” de 250 milhões de dólares dos EUA para o Egito, segundo outro artigo do Guardian. Verifica-se assim a manutenção da “diplomacia dos dólares” norte-americana, já tão conhecida em regiões como a América Latina em tempos de crise política e econômica, que os Estados Unidos aproveitam para fortalecer a sua influência imperialista.

Ainda, o FMI, com mediação dos EUA, elabora e impõe mais uma vez planos de verdadeira dependência econômica a países que estão em vias instáveis, política e economicamente. A esse respeito, Kerry disse ser importante que os grupos políticos se unam para “realizar as reformas necessárias para qualificar [o Egito] para o pacote do FMI,” que incluem o já padronizado aumento de impostos e a diminuição do subsídio à energia, essencial para a economia egípcia.

A oposição acusa Mursi de seguir os passos de Hosni Mubarak e de falhar na realização de reformas, tentando instalar um sistema mais conservador e religioso. A administração de Mursi e a Irmandade Muçulmana, a sua vez, dizem que a oposição está afastando-se do desafio nas urnas.

Kerry chegou ao Egito no sábado, vindo da Turquia, o sexto dos nove países que visita neste tour pelo Oriente Médio, em suas primeiras visitas oficiais como secretário de Estado. Já Israel, um ponto crucial da política externa estadunidense, será visitado pelo presidente Obama, ainda este mês.

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