E o Oscar não vai para “5 Câmeras”, ainda acusado de incitação

O Academy Awards perdeu uma oportunidade neste domingo (24): a de tomar uma postura política útil. Ainda pior, o documentário palestino sobre a ocupação israelense, Five Broken Cameras (“5 Câmeras Quebradas”), foi acusado de “incitação” pelas chamadas “Forças de Defesa de Israel”, ou seja, o Exército israelense.

Por Moara Crivelente | No Portal Vermelho

Documentário 5 Câmeras Quebradas - Palestina 


Documentário palestino “5 Câmeras Quebradas”, nomeado ao Oscar. Foto: Issam Rimawi – The Electronic Intifada


O evento, em que uma estatueta (o Oscar) é entregue aos “melhores” atores e atrizes, diretores, ou melhores estrangeiros, seja lá o que isso significa, poderia ter afirmado uma preocupação importante, contra a ocupação israelense dos territórios palestinos, denunciada por dois documentários nomeados ao prêmio.

Muitos acompanharam a possibilidade de “5 Câmeras Quebradas” ou de o israelense “Os Guardiões” – que agrega entrevistas de ex-chefes do Shin Bet (organismo de inteligência de Israel) – ganharem o prêmio na categoria de Melhor Documentário. O Portal Vermelho publicou matérias a respeito e replicou uma interessante pesquisa demográfica sobre os que votam pela atribuição do prêmio: a maioria é composta por brancos, homens, acima dos 60 anos de idade, habitantes de uma Los Angeles cuja população é significantemente judia.

Alguns especularam que isso poderia significar uma derrota iminente dos dois documentários, já que a preocupação dessa camada da população é justamente com a transmissão de uma imagem positiva do Estado de Israel. Falharam em notar que os documentários, assim como grande parte dos ativistas internacionais pela causa palestina, criticam uma política de violência e ocupação sistemática empregada pelo governo como instituição formada por interesses partidários, e não o Estado de Israel em si, ou os israelenses em geral.

Não obstante, soldados das Forças Armadas de Israel (FDI), através de um grupo intitulado “Consenso – Guardiões do Espírito das FDI”, postaram um vídeo no Youtube como parte de uma campanha contra os diretores de “5 Câmeras Quebradas”. Nele disseram que o documentário deveria ter sido indicado à categoria de “melhor filme de propaganda”, já que teria faltado com a objetividade, e que “seu único propósito é afetar as FDI e seus soldados.”

Ainda, o grupo disse que os soldados que apareceram no documentário poderiam estar em perigo, chamando-os a entrar em contato caso precisassem de um advogado, para acusar os produtores do documentário por “incitação”.

Ao que tudo indica, além das próprias políticas que ocupam todos os aspectos da vida palestina, as FDI também se preocupam em combater a “propaganda” daquele povo com a sua própria, num discurso perene de vitimização. Sobre as ações violentas empregadas por seus soldados contra o povo palestino, claramente retratada nos documentários, nada a declarar para além de um “direito a autodefesa”, como sempre.

Se os palestinos conseguiram defender-se dos ataques sistemáticos contra suas casas, vidas, terras e cultivos com “5 Câmeras”, na esperança de que alguém assista as imagens com um pouco mais de ultraje ou simpatia por sua causa, então não é exercido o direito à “autodefesa”, mas a prática da “incitação” contra as forças armadas israelenses. Mais uma vez, verifica-se o uso da dupla moral no conflito Israel-Palestina. E no Oscar.

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