Eleições israelenses provocam expectativas, mas poucas dúvidas

Benjamin Netanyahu, atual primeiro-ministro de Israel, prepara-se para assumir mais um mandato. As eleições realizam-se nesta terça-feira (22) sem grandes surpresas, mas com grandes debates sobre a posição israelense na região, tanto no que diz respeito à Palestina quanto ao Irã e seu programa nuclear, assim como à Síria e ao Egito, um em conflito interno e o outro em transição.

Por Moara Crivelente | No Portal Vermelho 

Netanyahu é líder do partido direitista Likud, como membro do Knesset (o parlamento israelense), e venceu as tensas eleições de 2009. Durante a campanha de então, o país conduzia o que ficou conhecido pelos árabes como “Guerra de Gaza”, a Operação Chumbo Derretido, iniciada em dezembro de 2008, contra o Hamas, em Gaza. Críticos israelenses chegaram a afirmar que a operação militar foi um instrumento eleitoral para fortalecer o governo anterior, mesmo que não houvesse chances de Ehud Olmert, então o primeiro-ministro, vencer Netanyahu. A operação terminou com mais de 1400 mortos palestinos, por volta de 13 mortos israelenses.

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Em meio à cobertura da posse de Barack Obama para o segundo mandato como presidente dos EUA, que ocorreu nesta segunda-feira (21), debateu-se os desafios e as sugestões para a sua política externa, principalmente no Oriente Médio. Em Israel, principal protegido dos estadunidenses, os planos de governo encaminham-se para a mesma política de ocupação e repressão do povo palestino, na forma de bloqueios e ataques contra a Faixa de Gaza e de centenas de postos de controle na Cisjordânia, além da construção de mais assentamentos em terras palestinas.

Netanyahu tem mantido alianças com a direita e com partidos religiosos, mas há expectativas de que ele busque diversificar a composição do seu novo governo no Knesset. Israel está cada vez mais isolado no cenário internacional, apesar do apoio incondicional dos EUA e de outras potências, e há temores de que, se Netanyahu continuar com a sua aliança com partidos religiosos e direitistas, haverá pouco ou nenhum avanço na questão com a Palestina.

Mesmo que reeleito, porém, Netanyahu provavelmente ganhará menos espaço no governo do que tem atualmente. O seu principal concorrente é Avigdor Lieberman (fundador e líder do partido ultranacionalista Yisrael Beitenu), que renunciou ao cargo de ministro das Relações Exteriores em 2012 por suspeitas de corrupção. De acordo com a rede libanesa Al-Manar, Lieberman já anunciou que “não vai parar de construir em Al-Quds” (Jerusalém), caso eleito.

Ainda segundo a mesma rede, quase como resposta, Netanyahu prometeu não desmantelar qualquer assentamento na Cisjordânia. Em entrevista ao jornal sionista Maariv, Netanyahu disse: “os dias em que os tratores deslocaram judeus estão no passado, não no futuro” e “nós não desmantelamos qualquer assentamento, nós os expandimos”, referindo-se tanto ao seu governo atual quanto ao mandato cumprido entre 1996 e 1999, também como primeiro-ministro. Naquela época, foi significativa a lentidão no Processo de Paz iniciado pelos Acordos de Oslo, assinados a partir de 1993.

A irredutibilidade de Netanyahu ao não aceitar que além de exigências também concessões devem ser feitas é uma marca da sua postura nas negociações; o primeiro-ministro recusa-se a levar adiante conversações baseadas em precondições postas pelos palestinos, ainda que Israel tenha as suas próprias. O governo continua expandindo assentamentos mesmo que o próprio Obama tenha, de forma um tanto branda, afirmado a sua oposição a esta política. Logo após a aceitação da Palestina como um “Estado observador não membro” da ONU, com 138 votos favoráveis ao novo status do país, o governo Netanyahu anunciou a construção de mais 3.000 unidades habitacionais na área conhecida como Leste 1 (E1, em inglês), importante para a manutenção de alguma contiguidade entre territórios na Cisjordânia. Está aí um bom exemplo, para os analistas internacionais, de o que esses novos/velhos governos, tanto nos EUA quanto em Israel, podem significar.

Não é de se estranhar, por tanto, a recusa dos palestinos que adquiriram a cidadania israelense (através de propostas contidas nos Acordos de Oslo) em participar das eleições. O jornal de centro-esquerda Haaretz, numa estratégia que gerou polêmicas, publicou uma nota em árabe em sua edição nacional, convocando os cidadãos “árabe-isralenses” a participar das eleições para que sejam representados dignamente. Em resposta, a revista eletrônica +972mag publicou artigos em que chamou a iniciativa do jornal de “paternalista”, ainda lembrando que os palestinos têm motivo de sobra para a desconfiança e até mesmo para deslegitimar o próprio governo israelense.

Uma mudança mais estrutural (o reconhecimento do Estado palestino independente e soberano, digamos) é a única forma legítima. Esperemos a formação da coalizão no governo israelense, enquanto isso ainda é essencial para uma solução negociada do conflito com a Palestina.

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