Governo israelense continua fragmentando a Palestina

A Palestina conseguiu ser reconhecida como um Estado observador não-membro pela Assembleia Geral da ONU,  depois de mais de seis décadas da criação do Estado de Israel na região, em 1948. No passado 29 de novembro, a grande maioria dos membros votou a favor do reconhecimento; ainda assim, o país está longe de ter estabelecida a sua soberania ou independência.

Por Moara CrivelentePublicado com alterações no Brasil de Fato

Em uma viagem a Jerusalém, em junho, participei de um tour oferecido pela ONG israelense Ir Amim, que tem na cidade um símbolo importante do conflito entre israelenses e palestinos, não só pelo que ela significa em termos religiosos, mas pelas diferentes situações que nela se desenrolam. A parte leste da cidade, teoricamente palestina, é uma mistura extenuante do abandono e da segregação, garantidos pela administração israelense.

Depois de bairros residenciais israelenses muito bem pavimentados, com parques e outras infraestruturas básicas, salta-se para o próximo quarteirão, onde vivem os palestinos, a poucos metros de distância. São vários os bairros em que isto se repete: ruas esburacadas, sem calçadas, casas depredadas, e vários outros problemas de infraestrutura.

Foto: Moara Crivelente
Jerusalem Oriental bairro palestino5Os palestinos não são permitidos administrar esses bairros; seus residentes pagam regularmente os impostos à administração local israelense, principalmente porque esta é uma forma de comprovarem a sua residência e, assim, evitarem a desapropriação pelo Governo de Israel. Há casos em que alguns palestinos tentaram vender as suas terras a israelenses, pela falta de condições de vida decente.

O tour planejado por Ir Amim dura uma manhã inteira, e dedica-se exclusivamente à parte leste de Jerusalém, passando tanto por regiões palestinas em que também vivem israelenses quanto por outras partes já tomadas por Israel – como o Monte Scopus, onde fica a Universidade Hebreia de Jerusalém. Além disso, passa por um bairro de refugiados palestinos, separado do resto da cidade por um vale estreito e mais um muro de separação. Ali se vive como nas favelas mais abandonadas, nitidamente.

A revista eletrônica +972 é mantida por jornalistas independentes e antigos correspondentes – tanto de jornais de centro-direita quanto de centro-esquerda israelenses – e seguiu a denúncia da ONG, que publicou um relatório sobre a recente posição de Israel – desde os 138 votos favoráveis ao reconhecimento do Estado da Palestina – de descongelamento de alguns assentamentos e a construção de mais unidades habitacionais em outra área.

A região E1 (Leste 1), assim chamada pelo Ministério da Habitação, fica localizada a leste da linha que delimita a municipalidade de Jerusalém; ou seja, é território palestino, e fica a caminho de Ramallah, a sede provisória do governo, na Cisjordânia. Já há ali grandes colônias como Ma’ale Adumin, mas os novos planos envolvem a construção de 3.000 unidades habitacionais para israelenses, e sequer mencionam a população palestina local. Os planos envolvem também a transferência de um Departamento de Polícia israelense desde os territórios da Cisjordânia para E1.

Muitas construções, irregulares mesmo segundo leis internas, já começaram em 2004, mas foram congeladas pouco tempo depois, por pressão internacional. Em novembro de 2012, após o pedido de reconhecimento palestino levado à ONU, o governo de Benjamin Netanyahu, do partido Likud, anunciou que vai permitir um planejamento de zonas para a construção de 3.000 unidades habitacionais para judeus em E1; seguindo estes planos, a Cisjordânia acabará dividida em duas.

Isso minará todos os esforços pelo estabelecimento de um país palestino, que será descontínuo e seguirá perdendo territórios. A ocupação israelense da região é considerada, inclusive pelos EUA e pela União Europeia, como determinante para que uma “solução de dois estados” se torne inviável para o conflito Israelo-Palestino.

Os dois atores somam-se ao pedido internacional a Israel de respeito às condições sugeridas pelo plano Rota para a Paz (Road Map for Peace, em inglês), proposto pelo Quarteto (EUA, União Europeia Rússia e ONU) em 2002, para a criação de dois Estados. Porém, o Governo israelense mantém-se determinado a manter a exigência de ouvir, diretamente do Governo palestino, o reconhecimento de um Estado judeu em Israel.

Durante seus discursos na Assembleia Geral, no passado dia 29, o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, reiterava a sua defesa de um Estado palestino que vivesse em paz com o Estado de Israel, enquanto o enviado israelense para a ONU, Ron Prosor, dizia sentir falta – ou, quase, fazer questão – de que o presidente palestino dissesse, diretamente, que seriam “dois Estados para dois Povos”.

Ainda assim, Abbas dissera que não havia ido à ONU para deslegitimar Israel como um Estado (tática basilar de todas as políticas do Governo israelense contra o palestino), mas sim para afirmar a legitimidade de um Estado que precisa agora da sua independência, a Palestina.

Não adiantou. Além de Israel manter todas as retóricas já conhecidas – principalmente depois de o primeiro ministro israelense ter ameaçado com “consequências” para o processo de paz caso os palestinos levassem o seu pedido à ONU – o Governo ainda anunciou a retomada das construções em território palestino. Não pareceu afetar-lhe o prejuízo para a solução de dois Estados defendida amplamente por vários atores, envolvidos direta ou indiretamente no processo de paz.

A repetição do adjetivo “judeu” para classificar o Estado de Israel é, junto com a ausência do adjetivo “palestino” para se referir ao que acaba de nascer formalmente, um atestado da irredutibilidade improdutiva de Israel, prática  frequente em conflitos assimétricos. Com a ilusão de que a solução do conflito interessa mais aos palestinos que aos israelenses, o Governo de Israel mantém a sua política de deslegitimar o Estado palestino. Agora, porém, com 138 países posicionados a favor do último, talvez a situação não se sustente mais.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s