Israel ataca Gaza e a mídia tenta justificar a violência

Uma vez mais, voltamos à programação para os territórios palestinos: um ataque inesperado, e as forças israelenses matam Ahmed al-Ja’abari, líder militar do partido e movimento islâmico Hamas, no governo da Faixa de Gaza. Além dele, até o momento em que se escreve este texto, fontes palestinas informam que mais oito pessoas morreram no ataque.

Por Moara Crivelente | No Portal Vermelho

Mais uma vez, voltamos às justificativas, às retóricas do governo israelense: “precisamos defender os nossos civis, vítimas de ataques constantes de mísseis vindos de Gaza”. Pouco se fala, porém, do que acende a faísca do lado de lá.

14 de novembro, um dia de mais abalos nas ondas de crise cobertas recentemente. Na Europa, milhões de pessoas saem às ruas em países que aderiram à greve geral convocada para hoje: Grécia, Itália, Portugal, Espanha e mais uns quantos simpáticos aos que se rebelam contra os cabrestos da Troika – Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e Comissão Europeia. Mais uma vez, a crise demonstra que a democracia só serve para tempos de calma; do contrário, os arreios espremem a classe trabalhadora e os estudantes, os aposentados, etc.

Mas voltando ao foco, o governo de Israel reclamou pela pouca atenção que recebeu do Conselho de Segurança da ONU, devido aos mísseis que chegaram às cidades do Sul israelense, perto da fronteira com a Faixa de Gaza. Segundo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, no caso de ataques a qualquer outra nação, o órgão se reúne imediatamente, o que não ocorreu desta vez. Estarão entediados com a situação, ou bastante ocupados com aquela mencionada antes? O fato anunciado é que a “nação israelense” foi alvo de mais de 120 mísseis desde o sábado passado.

O ataque que matou o líder militar do Hamas, envolvido também na fundação política do partido – e que participou na tomada de Gaza em 2007, depois de eleições “democráticas” o suficiente para os padrões ocidentais, mas não reconhecidas pela Europa, pelos EUA ou por Israel – veio de mais um drone, ou veículo não tripulado, enviado desde terras hebraicas.

Na mesma viagem, o ataque israelense resultou em ainda oito “casualties”, termo preferido dos militares em posição de ataque, ou seja, mais 8 mortes inúteis: matou 8 vezes mais do que o “justificado”, ou ainda, quase 90% mais pessoas do que “necessário”, se usarmos termos, mecanismos e ferramentas instrumentalizadas por eles próprios.

Como se qualquer morte, incluindo a de um líder político, num sistema internacional “soberanista”, e da forma que foi provocada, fosse justificável. Espera-se ainda, segundo discursos do próprio primeiro-ministro israelense, uma invasão por terra. A história se repete: já há reservistas sendo convocados e posicionados. Mas a frase emblemática que a mídia internacional prefere repetir é a declaração inflamada de um líder do Hamas, dizendo que Israel “abriu as portas do inferno”.

Mas isso não é um problema para o poderoso Estado de Israel. Voltando ainda ao que não foi dito suficientemente: os mísseis que Israel diz somar aos 120 nos últimos dias, enviados ao território israelense pela Brigada Ezedeen al-Qassam (e muitas outras, seguramente, esquecidas frequentemente), do Hamas, foram reações, elas próprias, à morte de um garoto palestino, por fogo israelense, ainda dentro da fronteira de Gaza. Inclusive, segundo a TV palestina, um dos primeiros alvos dos mísseis palestinos nesses dias foi o próprio jipe de onde os tiros contra o garoto foram disparados, destruído por um míssil antitanques.

Assiste-se mais uma vez à escalada de violência, que não será coberta com muito mais justiça do que foram as escaladas das últimas vezes. Um cessar-fogo estava em negociação, as eleições estão por vir em Israel, e a Autoridade Nacional Palestina, comandada pelo Fatah na Cisjordânia – lembre-se que Fatah e Hamas são oponentes políticos, apesar das negociações de reaproximação – está com as malas feitas para a Assembleia Geral da ONU, no próximo dia 29. Planeja pedir o estatuto de membro daquela organização para o Estado Palestino e, assim, testá-la.

Os primeiros elementos da descrição do contexto, no parágrafo anterior, não são muito diferentes dos que se verificavam no final de 2008, quando Israel lançou contra Gaza a sua operação militar. O resultado: 22 dias de destruição, mais de 1.400 mortos palestinos, vários e extensos relatórios de ONGs de Direitos Humanos e uma missão de investigação do Conselho de Direitos Humanos da ONU, com o seu próprio relatório, foram ignorados.

Importante lembrar, porém, que no relatório do Conselho de Direitos Humanos – ou “Relatório Goldstone”, como ficou conhecido –, tanto Israel quanto o Hamas e a sua brigada militar foram acusados de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, termos bastante pesados que não deveriam ter sido enterrados com tamanha facilidade. Esperemos que a história não se repita, num contexto em que as grosseiras violações de direitos humanos e humanitários se repetem cotidianamente.

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