Defesa Nacional dos EUA e a reforma de mentalidades

(Publicado no Vermelho, 13 de Março 2012)

As tropas do Exército dos EUA foram enviadas para o Afeganistão praticamente assim que as duas torres gêmeas caíram. Há quem questione as bases para tal decisão, felizmente. Mas assim mesmo, ainda há “botas no terreno”, como os militares nortenhos costumam dizer; mais uma parte da bagunça que sobrou para o Presidente Obama tentar organizar, junto com Guantanamo e outros exemplos.

Infelizmente, o Presidente não fez muito pela situação. Claro que os belicistas de plantão guardam o Congresso dos EUA como cães treinados, sem deixar que qualquer decisão saia dali para amenizar a guerra, como mínimo. Exemplo é o último National Defense Authorization Act (NDAA), documento que define os gastos em Defesa do ano fiscal de 2012. Entre as críticas estão o suposto aumento do tempo em que as autoridades estadunidenses podem manter presos os suspeitos de terrorismo.

Não é bem assim: o tempo e as definições de “terrorista” continuam arbitrários na mesma medida que antes, quando guiados pela Authorization of Military Use of Force (ou a Autorização para o Uso Militar da Força), forjada após os ataques de 11/09. O que o NDAA faz é impossibilitar o gasto de qualquer recurso na preparação de outro centro de detenção para a transferência dos presos de Guantanamo; proíbe a transferência dos mesmos para os EUA; e dificulta da mesma forma que antes a transferência para outros países – apesar de haver casos conhecidos em que isso aconteceu. Ou seja, impossibilita que o Presidente cumpra com a sua promessa de fechar a prisão de Guantanamo.

Do outro lado do mundo, lá onde a guerra realmente acontece, estão as “botas” majoritariamente estadunidenses que, muitas vezes, não parecem saber onde estão e por que estão ali. No Paquistão, os tão aclamados aviões não-tripulados – aqueles que supostamente reduzem os custos humanos da guerra –, atacam vilas e civis quase indiscriminadamente, como antes do seu uso. Também atacou militares, é verdade, por volta de 45 paquistaneses. Sim, dos “aliados”, na “guerra contra o terrorismo”.

Depois disso, no Afeganistão, outro “incidente diplomático”: soldados queimaram um Corão. Poucos dias depois, um outro soldado entra em casas de civis afegãos e dispara contra eles. Foram aproximadamente 16 mortos, entre crianças e mulheres. Provavelmente pensou que estava jogando algum vídeo-game ou vendo algum filme de Hollywood, em que se ouve constantemente “go get them!” (algo como “acaba com eles”), incitando à eliminação do inimigo, já bastante esteriotipado no papel do “mal”, para completar a lavagem cerebral.

Assim mesmo, o secretário de Defesa Leon Panetta assegura que os planos dos EUA e da Otan “no terreno” não serão mudados por esse “terrível incidente”. Caberá, de alguma forma, aqui, a pergunta sobre onde está a suposta construção da paz. Quem é que a está levando a cabo, realmente? Que soldados, com treinamento militar, dificilmente têm a capacidade necessária para esta missão, já sabíamos. Mas agora, se era para manter a segurança enquanto isso acontecia, já não há dúvidas de que têm pouco a fazer ali.

Por outro lado, às vezes se pode ver em emissoras menos sangrentas reportagens sobre reconciliações tímidas entre alguns afegãos e os talibãs, por exemplo. Numa delas, Al Jazeera, um grupo de soldados afegãos, acompanhados por soldados estadunidenses, no topo de uma montanha, procuravam pelos talibãs através da mira das suas armas. Encontraram-nos, porém, passando entre canais de emissão de rádio. Resolveram conversar, numa tentativa descontraída de compreensão mútua. Provavelmente, porém, também são vistos pelos talibãs através da mira das armas deles, principalmente enquanto houver “botas no terreno”, acompanhando-os.

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