A biblioteca da minha mãe

Simone de Bouvoir praticamente saltou para as minhas mãos; me trouxe  a revolta por um sistema de coisas em que o conforto de uns é pago com “O Sangue dos Outros”; em seguida, Émile Zolà fez o mesmo esforço, desde um cenário parecido, com “O Germinal”. Ainda por volta dos 15 anos, em que a sede de revolução que eu tinha parecia romantismo, pensando numa época em que a política se pagava com moeda mais cara, li sobre os professores-guerrilheiros escondidos no Araguaia; li antes sobre a perseverança da Olga Benário e da Coluna Prestes até e durante a II Guerra Mundial, e algumas vezes repeti toda a coleção em que a Mafalda do Quino comenta com ar mais inocente, e por isso mais sábio, sobre o (des)funcionamento do mundo.

Antes de tudo isso, e mais, as fileiras de livros que a minha mãe acumula nas estantes mais acarinhadas que eu conheço me foram introduzidas por ela com contos esparsos sobre as suas andanças por Santos, em épocas em que os protestos e reuniões das quais participava ainda se organizavam às escondidas. Eu me sentava no chão, ao lado da sua escrivaninha, e quase nunca via nela um olhar atônito pelo fato de eu estar interrompendo os seus escritos. Ela tirava os óculos, mas ainda segurava o lápis, apertando a ponta emborrachada, e me dava com paciência o seu tempo e a sua experiência como um presente, uma garantia de que eu começava pelo caminho certo.

Sempre que ouvia alguma crítica política, alguma ideia de sociedade, alguma teoria econômica, esperava da minha mãe o sinal verde para continuar concordando ou discordando. Me preocupava por não poder fazer isso sozinha – me reassegurar de que ia bem – mas ao mesmo tempo pensava que recorrer a ela só podia ser certo. Por isso também, a biblioteca que ela mantinha com tanto carinho me pareceu particularmente atraente, como uma jornada aventureira de uma adolescente descobrindo a si mesma, a forma como queria ver o mundo. Pensava que fazer isso através dos olhos da minha mãe só podia me guiar para uma noção de mundo mais justo.

A acompanhei durante as suas aulas na Faculdade; me sentava no fundo da sala, bastante antes de entender a sua coleção de livros, enquanto ela se formava para ser historiadora. Logo ela passou para o Mestrado – eu me lembro da formatura – e nos contava a mim e ao meu irmão sobre cada descoberta intrigante que pretendia incluir na sua dissertação. A defesa, eu também assisti. Não me lembro de muito, é claro: só alívio e orgulho.

Antes disso, eu também a espiei dando aulas: primeiro numa pequena casa improvisada, perto do nosso quintal, para senhoras de idade avançada cuja vida não vinha sendo fácil. Àquela altura, a minha mãe descobriu que uma delas não podia ler por que precisava de óculos. Assim ela me ensinou que algumas coisas dessa vida injusta são bem mais simples do que pensamos, se houver vontade. Depois, eu a vi dar aulas na universidade, e me lembro de falarem outra vez sobre a ditadura. Parece que o tema ainda dá pano pra manga; ela já deu aulas na universidade, já deu aulas em escolas, já organizou jornadas interdisciplinares, feiras literárias, uma biblioteca aberta, criou um, dois, três projetos sociais e o assunto sobre o que fazer com o entulho e a memória da ditadura ainda não foi resolvido.

As nossas conversas se davam nos lugares mais inusitados, e por isso tão nossos: na cozinha, enquanto ela tomava um café, comentávamos sobre a humanidade necessária em todo ser político preocupado com um mundo melhor; no jardim, enquanto regava as plantas, nos revoltávamos juntas com as desigualdades sociais e a apatia asquerosa de pseudo-intelectuais bastante úteis pra que a elite continue intacta; na biblioteca, comentávamos sobre políticas e leis em debate, e no banheiro, enquanto ela tomava banho, comentávamos sobre os projetos em que ambas gostaríamos de trabalhar juntas.

Nos intervalos, a minha mãe me contava sobre a infância que teve em Marília: sobre as suas aventuras, com bastante traquinagem; sobre o seu pai com bastante carinho, e sobre a sua mãe com bastante orgulho, e saudade; são os avós desconhecidos mais amados jamais, os símbolos de ternura mais vivos em mim, imagens delicadamente esculpidas por ela. E o parágrafo é curto por que a comoção pelo assunto é grande.

Foi a vez então de Susan Sontag, Gabriel Gacía Marquez e Eduardo Galeano, com “As veias abertas da América Latina”, saltarem para a caixa de livros que eu preparei, selecionando num processo árduo de “resumo” os livros da minha mãe que eu ainda queria ler. Eles sempre estiveram lá, mas cada tarde que eu passava na biblioteca dela me trazia novas sedes e fomes. A maioria dos livros que “encaixotei” eu ainda não li; para mim, eles continuam naquela caixa de seleções, apesar de saber que a minha mãe, depois das minhas mudanças de solo, já os recuperou, provavelmente soltando risos ou exclamações carinhosas tanto pelo meu interesse quanto por conseguir devolver os seus livros nas estantes. Outros, segundo ela, eu “afanei”; é que o mundo dela continua pra mim um objetivo a ser alcançado; a sobriedade que ela encontra para interpretar eu ainda não solidifiquei. A minha única opção é levar alguns momentos com ela pra onde quer que eu vá.

E eu encontrei um pouco da minha mãe, mesmo fora da caixa, em Barcelona, há poucos dias, quando ouvi Eduardo Galeano narrar algumas passagens do seu livro mais recente. Levantei sozinha para aplaudir quando ele falou sobre os indígenas latino-americanos que descobriram, há mais de cinco séculos, que “estavam perdidos”, e enxuguei lágrimas tímidas quando ele falou de humanidade e amor, com o sotaque sábio de um senhor uruguaio que me trouxe de volta, tão nítida e carinhosamente, para a biblioteca da minha mãe.

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